terça-feira, 22 de julho de 2014

Discussão e apontamentos sobre o conflito entre Israel e Palestina

por LUIS FELIPE GENARO

Tenho observado em meios diversos que existe uma notória incompreensão – generalizada! – de boa parte das pessoas a respeito de um dos conflitos político-militares mais longos e complexos da contemporaneidade. Entretanto, venho refletindo: essa incompreensão generalizada não é fruto do acaso. Noto a cada dia, principalmente da imprensa internacional, um esforço a não compreensão do panorama geral e, muito menos, dos acontecimentos grandes e miúdos sobre o conflito entre Israel e Palestina. 

Há, atualmente, intelectuais de peso trabalhando sobre o tema. Noam Chomsky, pensador estadunidense dissonante é hoje o carro-chefe dessa categoria. Entre eles está o crítico literário Edward Said, falecido recentemente; o cientista político Norman Finkelstein; o sociólogo Immanuel Wallerstein; e o cineasta australiano John Pilger. Pensadores críticos do período em que vivemos, são hábeis escritores, pesquisadores e, não menos importante, militantes contrários aos males da globalização, do imperialismo e do sistema de exploração capitalista.


É sabido que Chomsky, Finkelstein e o restante concentraram suas diversas intelecções na barbárie cotidiana dos sionistas no Oriente Médio, sempre em consonância com o apoio irrestrito, financeiro e bélico, do império Norte-Americano. Tendo em vista a inexistência de uma neutralidade, a questão Israel-Palestina passa a ser um dos temas mais polêmicos e conflituosos que se têm notícia. Os últimos acontecimentos na faixa territorial de Gaza não nos deixam dúvida. Dito isso, como compreender este conflito?

Na época da grande expansão capitalista, ideias e ações imperialistas ditavam as nações europeias do século XIX e início do XX. A expansão industrial e militar rumo aos países e territórios ditos “incivilizados” – como a África e a Ásia, por exemplo – culminariam na partilha do mundo pelas grandes potências da época. Para a mentalidade eurocêntrica, o Oriente Médio, “lugar de árabe e muçulmano”, logo incivilizado, foi dividido e conquistado por potências como a Grã-Bretanha, o estandarte do burguês utilitarista. 


O período dos impérios foi também o dos nacionalismos. Do século XIX ao início do XX, em ambos os hemisférios, desenvolveram-se movimentos nacionalistas que reivindicavam a autogestão e a independência financeira. A mesma coisa aconteceu entre judeus e árabes. Como a Palestina foi o único território a não se emancipar – da Inglaterra, atentemos – sionistas do mundo todo, financiados por barões e banqueiros europeus e norte-americanos, deram o aval para 350 mil judeus se instalarem na região. Com o advento da II Guerra Mundial e o Holocausto nazista, a onda de imigração cresceu rapidamente. 

Seria a Palestina a “terra prometida” dos judeus? Finalmente o Deus de Israel, séculos depois, teria oferecido ao seu povo um território vazio, vasto e pronto para ser cultivado? Novamente a religião tornou-se o lábaro dos interesses geopolíticos, econômicos e militares do Ocidente. Em meio à tensão pré-Guerra, atentemos para um trecho da Declaração de Balfour, intrigante documento escrito em 1917 pelo secretário britânico de Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour, sobre a questão da Palestina: 

O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento, na Palestina, de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.

Bem, se nada seria feito para atentar “contra os direitos civis e religiosos das coletividades não judaicas”, essa foi uma promessa não cumprida. Ou melhor: uma mentira muito bem contada. Membros do movimento sionista – favoráveis à criação do Estado de Israel – e as potências da época simplesmente ignoraram as populações nativas que lá moravam, cultivavam e comercializavam. “Meras tribos e beduínos”, pensavam eles. Em 1948 o mundo árabe partia para guerra com exércitos do Egito, Iraque, Líbano, Síria e Jordânia com o objetivo de recuperar, sem sucesso, as terras conquistadas. 

Em 1956, o presidente egípcio Adbel Nasser decide nacionalizar o canal de Suez, um importante elo entre o Mediterrâneo e mar Vermelho. Israel ataca o país e toma o controle do Canal, levando ao segundo conflito árabe-israelense, conhecido na historiografia como a Guerra do Sinai. A resistência árabe se intensificaria em 1967, quando egípcios, sírios e jordanos impediram embarcações israelenses de trafegar pelo mar Vermelho, provocando a Guerra dos Seis Dias. Em 1978, período intenso de resistência árabe, a população muçulmana dos territórios conquistados inicia uma série de ataques ao exército israelense. Depois disso, o Conselho Nacional Palestino proclama o Estado independente da Palestina, sendo cunhado líder máximo, Yasser Arafat. O conflito, como se sabe, se arrasta até os nossos dias. 

Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, o ehtos do Estado de Israel resume-se a duas questões principais: cegueira nacionalista e megalomania do poder militar. O arsenal bélico e o Exército, sem falar nos grupos paramilitares e nas agências secretas israelenses, são considerados os mais eficazes e agressivos da atualidade. Financiados pelas grandes potências do globo e mascarados pela imprensa internacional como uma “democracia” contra “bárbaros” e “terroristas”, o genocídio do povo palestino parece caminhar a passos rápidos. 


Diariamente dezenas de crianças árabes são trucidadas. Suas residências, demolidas. Mísseis são lançados em alvos civis, edifícios residenciais, escolas, museus, universidades e praças – espaços onde, supostamente, a resistência fundamentalista árabe residiria. Quando capturada a resistência é presa, torturada e morta. Aos poucos o Estado de Israel toma o controle da região e aniquila os moradores não judeus. Presos a céu aberto, muros e cercas são erguidos diariamente para confinar os palestinos. Saneamento, construção civil, energia elétrica, tráfego de alimentos, segurança pública, entre outros serviços, são controladas pelo Estado de Israel. As liberdades civis, individuais e religiosas do povo palestino praticamente inexistem.

Recentemente a intelectualidade à esquerda pró-Palestina de diversos países, entre eles o filósofo esloveno Slavoj Zizek, o teólogo brasileiro Frei Beto e os estudiosos citados no início, propuseram um embargo econômico internacional a Israel e o cessar fogo mútuo. Todos sabem que mais do que orações e pensamentos positivos, a situação da Palestina carece de uma ação efetiva. Não mais de governos, organizações e lideranças carismáticas, pois é evidente que uns e outros estão lucrando, e muito, com o desenrolar do conflito. Pipocam ao redor do globo manifestações e revoltas antissionistas e pró-Palestina, enquanto isso os senhores do mundo tapam os ouvidos, os olhos e a boca. “Até quando?” é a questão que todos fazemos. É a questão premente. Uma questão... sem resposta. 

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