quinta-feira, 28 de agosto de 2014

História de Itararé: "A Era das Revoluções"

por OSVALDO RODRIGUES JUNIOR

No clássico “A era das revoluções”, Eric Hobsbawm apresenta as transformações ocorridas entre 1789 e 1848, por conta da chamada "dupla revolução": a Revolução Francesa e a Revolução Industrial Inglesa. Ambas alteraram as estruturas político-econômicas do mundo ocidental colocando fim à nominada Idade Moderna e dando início à Idade Contemporânea. 

Itararé teve a sua “era das revoluções” ou “década das revoluções”, período em que foi palco de dois grandes eventos históricos, que, se não transformaram o Brasil como a "dupla revolução", transformaram o mundo ocidental, promoveram mudanças substanciais no panorama político nacional: a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932. 

A Proclamação da República organizada pelos militares e pelas elites em 1889, e assistida pela população “bestializada”, marcou o início da Primeira República ou República Velha. Este período é “didaticamente” dividido em dois: República das Espadas (1889-1894) e a República das Oligarquias (1894-1930). Durante a República das Espadas o Brasil foi governado pelo Marechal Deodoro da Fonseca e pelo Marechal Floriano Peixoto. A Revolta da Armada (1893-1895) e a Revolução Federalista (1893-1895), que inclusive teve como palco da resistência Itararé, desgastaram o governo dos marechais e abriram espaço para a chegada dos civis ao poder. Em 1894, o paulista Prudente de Moraes assumiu como primeiro presidente civil, dando início à República das Oligarquias. Neste período, o Brasil foi governado por representantes das oligarquias dos dois principais estados: São Paulo e Minas Gerais. Esta política de “revezamento” ficou conhecida como “política do café com leite”. A manutenção desta política se dava, principalmente, por meio do “voto de cabresto”. Neste sistema, ocorria a troca do voto por benefícios materiais ou mesmo a coerção física ou psicológica para determinar o voto. 

Na década de 1920 lançou-se como candidato à presidência Artur Bernardes. Irritados com a “polarização” política, militares do Rio Grande do Sul organizaram um movimento contrário ao governo republicano que ficou conhecido como “tenentismo”. Este movimento simbolizou o descontentamento com a manutenção do poder nas mãos das oligarquias do café e o interesse dos militares de participarem mais efetivamente da vida política do país. Em 1929, os paulistas decidiram lançar Julio Prestes, o que desagradou os mineiros que formaram com outros estados a Aliança Liberal. Esta aliança lançou para a presidência Getúlio Vargas (então governador do Rio Grande do Sul). Derrotado nas eleições por uma diferença de cerca de 300 mil votos, porém apoiado por setores da população e pelo exército, Vargas deu um golpe de Estado e assumiu o poder no dia 3 de novembro de 1930. Itararé, localizada na fronteira entre os estados do Paraná e São Paulo, acabou sendo palco da “resistência” dos legalistas. Primeiro, por se tratar de uma “cidade de divisa”. Segundo, por se tratar de uma região de “difícil acesso” com formações rochosas naturais e escorregadias, o que dificultaria a vitória dos “revolucionários”. 

No dia 4 de outubro começaram a chegar as tropas legalistas em Itararé. O 2º batalhão de Itapetininga e o 4º batalhão da Capital, além de tropas de Itú, Quitaúna e das forças públicas, ficaram sob o comando do coronel Paes de Andrade. A luta começou “do lado de lá” da Barreira, no Morungava. As pessoas viviam amedrontadas pelo barulho de canhões e metralhadoras. Correram informações de que a cidade seria bombardeada pelas tropas revolucionárias. Com isso, no dia 18 de outubro o povo se evadiu procurando abrigo nas zonas rurais ou em outros municípios vizinhos. Casas, lojas e armazéns foram saqueados.


Segundo Adriano Queiroz Pimentel, no dia 19 de outubro daquele ano Itararé estava com aspecto triste de uma cidade abandonada. Casas vazias, a estação ferroviária servindo de quartel para as tropas legalistas e trincheiras nos altos da Santa Casa compunham o cenário de guerra. Eram 2.400 homens nas tropas legalistas contra 4.200 homens nas tropas “revolucionárias”. O combate durou 14 horas e os “revolucionários” avançavam para romper a fronteira por Itararé. Paes de Andrade comunicou a dificuldade aos superiores que determinaram “defenda Itararé a todo transe”. A próxima batalha ou grande ataque dos “revolucionários” estava marcado para começar ao meio-dia do dia 25 de outubro. Porém, às 7 horas da manhã, o deputado gaúcho Glicério Alves transpôs a barreira entre as tropas com uma bandeira branca. 

O gaúcho propôs rendição a Paes de Andrade com a afirmação de que havia recebido a notícia de que o presidente Washington Luís fora deposto. A notícia foi confirmada e a “junta governativa” que assumiu a presidência ordenou o fim das hostilidades. Por conta da rendição, a grande ofensiva ficou conhecida como “batalha que não houve”. No dia seguinte, os soldados “revolucionários” entraram em Itararé expondo as armas e foram saudados com fogos, comemoração de “alívio” pelo fim dos conflitos na região. Três dias depois, a 28 de outubro, Getúlio Vargas desembarcou na estação ferroviária de Itararé, a caminho do Rio de Janeiro. Recepcionado na estação ferroviária, Vargas seguiu para o Rio de Janeiro para assumir a presidência da República, colocando fim à Primeira República ou República Velha. 


A “Revolução de 1930” trouxe desdobramentos para Itararé, “desde as sátiras de um jornalista gaúcho até a alteração de algumas ruas” (BARRETO, 2013. p. 39). A cidade passou por transformações em decorrência deste evento histórico. Após o movimento de 1930, Apparício Torelly, jornalista gaúcho, passou a utilizar o pseudônimo “Barão de Itararé”. Isso para ironizar as nomeações em benefício daqueles que apoiaram a Aliança Liberal. Em forma de sátira, o jornalista dedicou a ele mesmo o título de nobreza, se denominando barão da “cidade da batalha que não houve”. 

Exceto em Minas Gerais, todos os presidentes dos estados foram indicados por Vargas. Nestes estados, foram nomeados novos prefeitos para os municípios. Em Itararé, Herculano Pimentel foi substituído por Paulo Ferreira, conhecido comerciante, membro do Partido Democrático, que apoiou a Aliança Liberal. Uma das primeiras medidas do seu governo foi alterar nomes de praças e ruas. A praça São Pedro passou a denominar João Pessoa, a praça Washington Luiz virou Siqueira Campos e a rua Coronel Acácio, 24 de outubro. 

Para governar o Estado de São Paulo foi indicado o tenente pernambucano João Alberto. O autoritarismo de Vargas começou a ser questionado pelo PD (Partido Democrático) paulista, que tinha apoiado Vargas em 1930, juntamente com o PRP (Partido Republicano Paulista). João Alberto ficou pouco no cargo e em julho de 1931 pediu demissão. No intervalo de um ano, três interventores foram nomeados. Aumentava a insatisfação com o governo provisório de Vargas. 

No dia 25 de janeiro de 1932, dia do aniversário de São Paulo, os paulistas se reuniram na Praça da Sé para exigir uma nova Constituição e a realização de eleições. 200 mil pessoas participaram da manifestação. Em fevereiro de 1932, a partir da união entre o PRP e o PD, foi formada a Frente Única. 

No dia 23 de maio nova manifestação foi o estopim para o início do conflito. Houve novamente uma grande mobilização nas ruas de São Paulo com um comício na Praça do Patriarca. A partir dos discursos inflamados, alguns manifestantes foram até a sede da Legião Revolucionária, órgão fiel ao governo federal que abrigava os jornais getulistas, “Correio da Tarde” e “A Razão”. Em meio ao ataque que resultou em tiroteio com 13 mortos, morreram quatro estudantes: Miragaia, Martins, Drausio e Camargo. As iniciais dos falecidos deram nome à primeira milícia civil da Revolução de 1932 ou “A guerra paulista”, o MMDC. 

Em março, Vargas nomeou um interventor civil e paulista para São Paulo e ainda acreditava em um desfecho pacífico. Porém, nem a escolha de Pedro Toledo acalmou os ânimos, e no dia 9 de julho São Paulo deu início à guerra. Imprensa, militares e civis foram envolvidos pelo discurso das elites paulistas de defesa da constitucionalidade. No início, o plano era chegar à capital pelo Vale do Paraíba, porém a inferioridade militar levou os paulistas a adotarem uma guerra de “trincheiras”, ou seja, muito mais defensiva. No front eram 28.000 soldados paulistas, sendo 14.000 soldados do Exército e da Força Pública, e 14.000 civis, contra 100.000 soldados legalistas. 

A imprensa de São Paulo impulsionava os soldados e procurava atingir a população de diferentes formas. Cartazes convocavam os paulistas para a batalha, sugerindo a doação de bens para o financiamento das tropas e a participação das mulheres na retaguarda. 

 

Itararé novamente foi palco dos conflitos entre constitucionalistas e legalistas, sendo novamente escolhida para sediar a resistência paulista contra as tropas que vinham do sul. Começaram a desembarcar os soldados constitucionalistas na Estação Ferroviária. O Cine São Pedro, o Cine São José e o Grupo Escolar foram transformados em quartéis. Conta-se que Paulo Ferreira, prefeito de Itararé e correligionário de Vargas, mandava estourar rojões para avisar a localização dos paulistas para os legalistas. 

A imprensa itarareense se dividiu. O jornal “Sul de São Paulo”, de Walfrido Rolim de Moura, defendia Vargas e atacava os constitucionalistas, tanto que o mesmo foi ameaçado por um coronel constitucionalista. Mesmo com a ameaça, Walfrido Rolim de Moura escreveu novos ataques contra os paulistas e fugiu pelo rio Itararé com seu filho Plínio para Sengés. O jornal “O Itararé”, de propriedade da família Tatit, aderiu aos constitucionalistas e teve a sua sede destruída logo após a invasão dos legalistas à cidade. 

Os conflitos na cidade foram do dia 15 ao dia 18 de julho e envolveram tropas constitucionalistas e legalistas que se enfrentaram na Barreira e na fazenda Morungava, outrora palcos da Revolução de 1930. De acordo com Cecília Duarte Fogaça: 

Quando começaram os combates na Barreira, à noite, podia ser visto da cidade o céu vermelho colorido pelo fogo dos canhões na Fazenda Morungava. Os disparos vinham assobiando numa tocha de fogo. Corriam boatos de que a cidade de Itararé seria bombardeada e muitas pessoas fugiam assustadas; outras temiam os saques, se fugissem. 
Dizia-se que o inimigo iria envenenar a água da cidade. O Prof. Ziller, diretor do Ginásio Rio Branco que ficava na praça Coronel Jordão, tinha organizado uma Linha de Tiro e o colocou os atiradores para protegerem a caixa d'água. Quando começaram os tiroteios, os rapazes abandonaram a guarda e também fugiram. 
Um avião paulista sobrevoava Itararé, acabando por assustar aqueles que não tinham fugido. Os inimigos lançaram granadas que destruíram a torre da Igreja Matriz, atingiram o campo de futebol do Fronteira, casas na rua São Pedro, além de fazer crateras em vários pontos dessa rua (FOGAÇA, Cecília Duarte, 2001 apud BANDONI, 2008. p. 36). 

Apesar das derrotas pontuais, os constitucionalistas resistiram em Itararé, até que no dia 18 de julho o Coronel Kingelhoefer, alemão, veterano da Primeira Guerra Mundial, ordenou que as tropas se retirassem para a defesa do Vale do Paranapanema. Com isso, Itararé ficou desguarnecida, sendo tomada pelos legalistas. 

No dia 19 de julho, as forças do governo ocuparam a cidade e o jornalista Walfrido Rolim de Moura foi nomeado prefeito. Membros da Frente Única Itarareense, como Theódulo Pimentel e Heitor Cortes, entre outros, foram presos e enviados para Curitiba. Mais uma vez, o município de Itararé foi palco de um conflito de proporções nacionais. 

A inferioridade numérica e bélica foi preponderante para a rendição no dia 2 de outubro. Os constitucionalistas tiveram 634 mortos, mas o número total de mortos ultrapassou 1.000. Apesar da derrota paulista, em 1934 Getúlio Vargas promulgou a Constituição, o que não representou a democratização do país. Pelo contrário, em 1937 Vargas deu início ao Estado Novo, governo ditatorial que só chegou ao fim em 1945. 

Em síntese, se a “era das revoluções” em Itararé não provocou as mudanças estruturais que a homônima europeia, colocou Itararé em posição de protagonismo na história do Brasil.

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