terça-feira, 10 de março de 2015

Um bicho papão chamado Piketty e a taxação de grandes fortunas

por SANDRO CHAVES ROSSI


Ultimamente o nome do economista francês Thomas Piketty tem sido citado muito no cenário político e econômico mundial, ainda mais depois da crise de 2008 que causou um efeito catastrófico nas grandes economias mundiais, que desencadearam inúmeras demissões até mesmo a quase falência de um Estado, como ocorre atualmente na Grécia. Mas por que Piketty incomoda tanto? Aliás, quem tem medo de Piketty? 

Em 2013, Thomas Piketty lançou um livro chamado “O Capital do Século XXI”. Basicamente a obra defende, através da análise de dados estatísticos, que o capitalismo possui uma tendência inerente de concentração de riqueza nas mãos de poucos e que isso cria uma desigualdade social, que por sua vez acaba afetando significativamente a democracia. Que o capitalismo faz isso não é nenhuma novidade, o que causou fervor foi a solução apontada por Piketty: taxar os mais ricos. Através dos dados coletados, a solução estaria em fazer políticas públicas muito mais eficientes em diversas áreas - como educação, saúde, transporte público, etc. Para isso seria necessário maior demanda de capital, por isso a taxação sobre grandes fortunas, já que na maioria dos países a carga tributária pesa muito mais sobre pobres e classe média do que ricos. 

A obra de Piketty foi tão impactante que foi best-seller em 2013, o que causou mais alvoroço ainda no mundo inteiro. O Capital do Século XXI demorou cerca de 10 anos para ficar pronto e foi baseado em pesquisas sobre o acúmulo de renda e patrimônio ocorrido nos EUA e Europa nos últimos dois séculos. A obra ainda contou com a colaboração de outros economistas renomados. Basicamente, o livro chegou às seguintes conclusões: ao longo do tempo, o rendimento privado do capital é maior do que o desenvolvimento da produção e dos salários; o comportamento dos capitalistas tende a ser rentista e não produtivista; nunca a desigualdade foi tão grande quanto hoje; defender imposto progressivo sobre riquezas e taxação das heranças é a saída mais plausível para diminuir a desigualdade social. 

O imposto sobre grandes fortunas já é realidade em alguns países. O exemplo mais recente é a França, que tributou em 75% sobre altos rendimentos. O tributo vai ser aplicado durante dois anos para os rendimentos superiores a um milhão de euros por ano e por contribuinte. Essa proposta foi feita pelo presidente François Hollande, que tem Thomas Piketty como um de seus mentores. A nova taxa deve atingir cerca de 1,5 mil pessoas, que pagarão uma média de 140 mil euros, o que deve gerar um total de 210 milhões de euros por ano. Na Alemanha, o tributo sobre o patrimônio atinge contribuintes que dispõem não apenas de bastante dinheiro, mas também de poder econômico e político. Sua compreensão original era de um complemento do imposto de renda, incluindo posteriormente as pessoas jurídicas. Apesar de suas virtudes, esse tipo de imposto foi considerado “confiscatório” na Alemanha e declarado inconstitucional pelo Tribunal Constitucional em 1995, porém, com a crise de 2008, a primeira-ministra Ângela Merkel estuda por o tributo em vigor novamente. Outros países europeus que adotam algum tipo de tributação sobre fortunas são Áustria, Suécia, Finlândia, Islândia, Luxemburgo, Noruega e Suíça.

O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, também pretende taxar grandes fortunas. Segundo ele, a taxação irá simplificar o código fiscal norte-americano e rever as normas que beneficiam as grandes fortunas e as maiores empresas do setor financeiro, em prol de uma redução das contribuições das famílias de classe média. Um comunicado oficial da Casa Branca diz que os montantes arrecadados serão depois “canalizados responsavelmente, para apoiar as famílias de classe média e investir no crescimento da economia”. Obama está sofrendo ataques da oposição republicana por causa dessa medida, mas ele rebate dizendo que "ninguém quer punir o sucesso nos EUA" e os que vão bem, entre os quais ele se incluiu, precisam pagar sua "fatia justa". Além disso ele reforça: "isto não é luta de classes, é matemática".

Enquanto isso no Brasil, o imposto sobre grandes fortunas (IGF) aguarda votação há 15 anos. Quando senador, Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP) propôs o tributo federal que está previsto na Constituição, porém, quando se tornou presidente da república, de 1995 a 2002, não tentou colocá-lo em votação. Desde então, a mesma pauta foi apresentada por seis partidos: PSOL, PT, PV, PCdoB, PPS e o próprio PSDB. O projeto mais recente foi criado em 2008, se tratava da taxação de patrimônios. O projeto foi apresentado pelos parlamentares do PSOL, especificamente pela ex-deputada e ex-candidata a presidência da república Luciana Genro (PSOL-RS), e os deputados federais Chico Alencar (PSOL-RJ) e Ivan Valente (PSOL-SP). O projeto quase foi a votação em 2010, mas acabou sendo arquivado em 2011.


O PT é um dos partidos que mais tentam por esse projeto em votação, porém, há 13 anos no poder, ainda não fez nada, pelo menos até agora. Em meio à crise financeira e política, o PT estuda taxar os mais ricos para aliviar as contas e tirar um pouco o peso da tributação das costas dos pobres e da classe média. Uma estimativa prevê que a taxação renderia cerca de 100 bilhões por ano para os cofres públicos. A bancada petista pressiona o governo para que essa medida seja tomada e o que parece é que ela vai conseguir se consolidar. O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, fez uma reunião com a bancada petista no Senado para discutir o assunto. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) confirmou que o governo deve propor alguma taxação para as classes mais altas. Mas, afinal, quem tem medo da taxação das grandes fortunas? Quem tem medo de Thomas Piketty? Quem tem medo são os oligarcas e os seus defensores que usam o capital em seu favor, não eu que ainda ando de ônibus e como no bandeijão.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Entre panelas e misoginias

De manhã, as pétalas. À noite, os espinhos. É simbólico que o espetáculo de ofensas a Dilma tenha ocorrido no Dia Internacional da Mulher

por MURILO CLETO


"Rosane, sua galinha, foi o PC que pagou sua calcinha", é o que dizia o cântico dos caras-pintadas que pediam o impeachment de Fernando Collor em 1992. O registro está presente no livro "Movimentos juvenis na contemporaneidade", assinado por Luís Antonio Groppo, Michel Zaidan Filho e Otávio Luiz Machado. O trecho é apresentado pelos autores como "outra marca fascinante" das passeatas, resultado da "irreverente criatividade dos estudantes".

23 anos depois, a presidenta Dilma marcou para as 20h30 pronunciamento oficial transmitido pela TV em rede nacional ontem, 8 de março. Para o mesmo horário, manifestações foram agendadas em diversas partes do país. Do alto dos prédios, opositores bateram panelas, gritaram e apitaram durante toda transmissão. "Fora Dilma, pega essa panela e volta pra cozinha", foi um dos coros mais entoados.

Durante o pronunciamento, Dilma falou sobre a Lei do Feminicídio, aprovada há poucos dias pelo Congresso e que sobe para sua sanção. Pelo Twitter, Alexandre Infante respondeu: "Dilma disse que vai sancionar amanhã a Lei do Feminicídio. Legislando em causa própria?" Infante é juiz federal em Montes Claros/MG e diretor da Associação dos Juízes Federais do Brasil. Poucas horas antes, o jornal O Globo publicou uma charge de Chico Caruso em que a presidenta é colocada de joelhos por um integrante do Estado Islâmico que empunha uma faca com a mão esquerda.


É simbólico que tudo isso tenha ocorrido num Dia Internacional da Mulher. De manhã, as pétalas.  À noite, os espinhos. Enquanto "críticos" passaram o dia inteiro reclamando das "feministas chatas" que não gostam "nem de rosas", a presidenta foi chamada de "puta", "cadela", "vadia". No meu feed, e no de tantos outros, o mesmo sujeito que compartilhou "um jeito diferente de chamar a atenção contra a violência no Dia da Mulher" veio a público pra mandar "se foder" a "vaca" durante o pronunciamento. E há quem não perceba a violência que isto impõe não a Dilma, mas a todas as mulheres. Fosse Aécio o impetrado, seria chamado de "ladrão", "corrupto", "cheirador", "viado", "filho da puta" - até pra ofender o homem é a dignidade do gênero feminino que se põe à prova.

O que se viu nas janelas dos bairros mais abastados de centros importantes do país é um sinal da invasão do ódio naturalizado nas redes sociais e que agora tem tomado outros espaços públicos. Foi este ódio que atingiu o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, rechaçado do Albert Einstein na companhia da esposa, em São Paulo, não por críticos à política econômica do governo Lula/Dilma, mas por pessoas que não aceitam a sua existência. É neste sentido que o panelaço de ontem se inscreve: tanto barulho pra que nem se escute o que Dilma tem a dizer. Não importa. Afinal, o que disser já está desautorizado de antemão.

Talvez seja por isso que os homens insistam tanto nas rosas e no cavalheirismo: são atos de gentileza. Pertencem ao universo de um bem querer quase altruísta. Uma concessão. Passada a boa vontade, voltamos a ser nós mesmos - um bando de trogloditas.

Abraços,
Murilo

sexta-feira, 6 de março de 2015

Etanol, o herói nacional?

Agora é a vez (...) do novo cardápio dos automóveis, que já não comem apenas petróleo ou gás, mas também milho e cana-de-açúcar de imensas plantações. Dar de comer aos carros é mais importante do que dar de comer às pessoas. E outra vez voltam as glórias efêmeras, que ao som de suas trombetas nos anunciam grandes desgraças. 
(Eduardo Galeano, autor do livro As Veias Abertas da América Latina) 

por MARCUS  V. DO NASCIMENTO



Foi o doce da cana-de-açúcar que deu forma à colonização portuguesa nos trópicos americanos em meados do século XVI. O açúcar, na época com alto valor no mercado europeu, incentivou a construção de centenas engenhos e o tráfico de escravos africanos que seriam “as mãos e pés do senhor de engenho”, nas palavras do padre jesuíta André João Antonil. 

A exploração da planta originária das ilhas da zona tropical do Oceano Pacífico em pouco tempo transformou a paisagem do nordeste brasileiro, sendo marca indelével do nosso período colonial. 

De acordo com o professor José Augusto Pádua, um dos principais nomes do campo da História Ambiental, “foi nos territórios da América tropical que o modelo de produção de monoculturas e trabalho escravo gerou o maior impacto na ecologia das paisagens. O desmatamento tropical é um fenômeno moderno, que atingiu o seu auge no século XX. O Brasil e algumas ilhas do Caribe, como Cuba e Jamaica, tornaram-se os símbolos do desmatamento provocado pela cana.” 

Na década de 1970, houve retomada da agricultura canavieira, mas o que interessava nesse período não era tanto a doçura da planta e sim o seu grande potencial energético, devido à crise do petróleo, originada no Oriente Médio. 

O álcool em pouco tempo conquistou o mercado brasileiro, e na década de oitenta grande parte da frota de automóveis do país já era movida pelo combustível de origem vegetal. Esse grande projeto brasileiro, baseado nos incentivos fiscais e empréstimos a juros baixos para usineiros e montadoras que fabricavam veículos com motor a álcool, ficaria conhecido como Proálcool. 

Na mesma medida em que a frota desses novos automóveis crescia, os latifúndios destinados à cana-de-açúcar e o preço dos alimentos aumentavam, já que as áreas antes dedicadas à agricultura familiar e gêneros alimentícios perderam espaço para a menina-dos-olhos do governo brasileiro. 

No entanto, a queda do preço do barril do petróleo, em meados dos anos noventa, serviu de desestímulo para o programa. Montadoras e consumidores voltaram seus interesses para os veículos movidos à gasolina, e os usineiros passaram a produzir açúcar. 

Situação inversa se verificou no início do século, quando o aumento do preço do petróleo, a constatação do esgotamento de suas reservas e os altos índices de poluição gerados pela sua queima levaram o mundo a buscar novas fontes de energia. Alavancou mais uma vez a produção de álcool. 

No Brasil, a produção do etanol passou a ser apresentada por produtores e por políticos como um modelo sustentável de desenvolvimento econômico. Em 2007, Lula, então presidente, afirmou que os usineiros “considerados como “os bandidos do agronegócio neste país” se tornaram “heróis nacionais”, mas não foi só o petista que defendeu essa tese. Na campanha para presidência da República do ano passado, o candidato tucano, Aécio Neves, criticou a falta de incentivo do governo Dilma Rousseff ao setor e propôs soluções para os seus problemas.

A maior tecnologia de produção vegetal de energia sem dúvida está relacionada à cultura da cana-de-açúcar, porém o discurso corrente associa a produção do etanol como parte de um projeto de desenvolvimento sustentável, capaz de propiciar recursos para o país e de gerar inúmeros empregos sem causar grandes problemas para o ambiente. No entanto, esse discurso esconde alguns problemas inerentes à produção em larga escala do etanol. 

Mesmo com avanços tecnológicos aplicados na produção nos últimos anos, os impactos ambientais desse modelo de desenvolvimento econômico ainda passam pela contaminação da água por resíduos da produção e por agrotóxicos, desmatamento da mata ciliar para expansão das áreas de cultivo, a poluição do ar, o empobrecimento do solo e o aquecimento global resultantes das queimadas ainda utilizadas na produção. 

Os problemas gerados não ficam restritos às questões ecológicas, afetam também o social, já que a agricultura familiar perde espaço para os latifúndios canavieiros, acabando com as condições de sobrevivência dessa população. O camponês ou passa a se submeter as mais degradantes situações de trabalho nos canaviais, ou migra para os centros urbanos no chamado êxodo rural. 

Esse processo que aumenta a concentração fundiária e de renda nas mãos de poucos também “incha” as cidades que com seus serviços públicos já precários não conseguem atender toda a demanda, além de fazer com que os gêneros alimentícios alcancem preços exorbitantes. 

O projeto do etanol não pode parar, pelo contrário, deve continuar sendo desenvolvido pelas inúmeras vantagens por ele oferecido em relação aos combustíveis fósseis, porém devemos considerar os riscos que o envolvem e não apenas pensar nos euros e dólares que podem entrar no país. E, como disse o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), "se aceitarmos que há riscos, podemos começar a trabalhar para controlá-los. Os biocombustíveis são uma grande oportunidade, mas temos que trabalhar para abordar seus riscos no contexto internacional”. 

A exploração da mão-de-obra, a degradação ambiental, e a concentração fundiária se dissolvem como açúcar no cafezinho quando a atividade sucroalcooleira é rotulada como altamente sustentável. 

Abraços, 
Marcus.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Todos por elas. Os desafios do feminismo no século XXI

por JESSICA LEME




Semana em que se comemora o dia Internacional da Mulher, hoje muito capitalizado pela indústria e propagandeado como mais um momento a se consumir... Mas ainda sim válido, com um histórico de luta pela igualdade de gênero e direitos das mulheres. 

Quando pensei em escrever sobre o dia 08 de março logo me veio a ideia óbvia, talvez, de refazer toda uma trajetória histórica social da presença (ou não) das mulheres no cenário histórico mundial e brasileiro. No instante seguinte percebi que a discussão sobre o “ser mulher” ainda é cheia de espinhos a serem vencidos mesmo na atualidade, e suas questões assinaladas no passado só nos dão o sentido de permanência dessas desigualdades. 

Duas falas comandaram a minha linha de pensamento para falar sobre feminismo, numa semana em que enxurradas de homenagens vazias, propagandas com mulheres belas e bem sucedidas enchem nossa televisão, rádio e internet, somente Ema Watson e Malala me pareceram esclarecer e trazer à tona a verdadeira tônica do feminismo no século XXI. 

É mais que sabido e rebatido anualmente a queima dos sutiãs, a Greve de Chicago, a liberdade sexual trazida com a pílula, o direito ao voto, o crescimento do número das mulheres com ensino superior no país entre outros ganhos da ala feminina, mas a questão trazida pelas duas jovens embaixadoras da ONU, Ema Watson comandando a campanha intitulada HeForShe (Eles por elas), e Malala, Nobel da Paz em 2014, representando o direito das meninas e mulheres a terem acesso à educação. 

Parafraseando o discurso de Ema Watson na Assembleia da ONU em setembro, a palavra feminismo tem sido carregada de preconceitos que acabam por levar uma discussão tão feminina quanto masculina para longe das sociedades atuais. Talvez tenhamos acreditado que a maior inserção das mulheres ocidentais num mundo que antes era somente dos homens generalizou a ideia de que todas as mulheres no mundo possuem os mesmos direitos. Isto está longe de ser a realidade. 

O feminismo teoricamente se aplicou à luta pela busca de igualdade de gênero, onde homens e mulheres poderiam exercer a mesma função e receber o mesmo salário para isso. Buscou colocar a mulher como sujeito ativo da sociedade indo muito além de sua predestinação ao casamento e a maternidade (ambos praticamente impostos pela sociedade patriarcal). 

Falar em feminismo, se autoproclamar feminista, leva a determinados preconceitos, como relacionar a feminista a mulheres que não se relacionam com homens, a mulheres mal resolvidas consigo mesmas, ou até se cogita que a mesma é uma luta sem sentido, visto que para a grande maioria da sociedade a mulher já ocupou todos os espaços sociais que o homem circunda. 

Foto: http://revistaogrito.ne10.uol.com.br/page/wp-content/uploads/2013/07/2013_time100_yousafzai.jpg
Para Malala, sobrevivente de um ataque do Talibã em 2012 no seu país de origem Paquistão, enquanto estava na escola, a morte de suas amigas e bem como a vida que lhe deu uma segunda chance tem muito a nos dizer sobre tantas mulheres e meninas pelo mundo afora que ainda são cerceadas de direitos básicos como a educação e saúde feminina. Vários motivos podem levar a esses entraves, guerras, religião, ditaduras... Mas todos tem o mesmo intuito, barrar a força da mulher, mantê-las subservientes ao homem. 

O último levantamento da ONU nos dá o verdadeiro panorama do por que o feminismo ainda é uma questão urgente, assim como Ema diz em seu discurso, ela que pode usufruir de todos os direitos que lhe permitem viver com dignidade, assim ela desejaria ver todas as mulheres e meninas. 

Dados do Fundo das Nações Unidas para as Mulheres: 

SAÚDE 

Apesar do aumento na proporção de mulheres que receberam assistência pré-natal, a África Subsaariana sozinha registrou 270 mil mortes maternas em 2005, isto é, metade das mortes maternas no mundo. (pág. 34-35) 

EDUCAÇÃO 

Em nível global, a taxa de meninas em idade escolar matriculadas na escola primária aumentou de 79 para 86% no período de 1999 a 2007. Mas na África Ocidental e Central existia uma das menores taxas do mundo, com menos de 60% das meninas em idade escolar, matriculadas na escola. (pág. 52-53) 

As meninas representam 54% das crianças em idade escolar fora da escola (58% em 1999). A proporção de meninas fora da escola é maior nos Estados Árabes: 61%. (pág.54) 

TRABALHO 

Os salários das mulheres representam entre 70 e 90% dos salários de seus colegas masculinos. (pág.97) 

“O emprego vulnerável” – trabalho por conta própria e contribuição para o trabalho familiar – é predominante na África e na Ásia, especialmente entre as mulheres. Esses trabalhadores sofrem com a precariedade e falta de redes de segurança. (pág.87) 

As mulheres ainda são raramente empregadas em trabalhos com status, poder e autoridade, e em ocupações tradicionalmente masculinas. (pág. 90-91) 

A maternidade continua a ser uma fonte de discriminação no trabalho. Mesmo com a legislação protegendo a maternidade, muitas mulheres grávidas ainda perdem seus empregos, e processos nesta área são comuns nos tribunais. (pág. 104) 

PODER E TOMADA DE DECISÃO 

Chefes de Estado ou de Governo são cargos que ainda são quase que “imperceptíveis” para as mulheres. Em 2009, apenas 14 mulheres no mundo ocupavam estas posições. (pág.117) 

Em apenas 23 países as mulheres compõem uma massa crítica – mais de 30% – na câmara baixa de seu Parlamento nacional. (pág. 124) 

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER 

As mulheres são submetidas a diversas formas de violência: física, sexual, psicológica e econômica – tanto dentro como fora de suas casas. (Pág. 130) 

Taxas de mulheres vítimas de violência física pelo menos uma vez na vida variam 12% a mais de 59%, dependendo de onde vivem. (pág.131) 

A mutilação genital feminina mostra uma ligeira diminuição na África. (pág. 135-136) 

MEIO AMBIENTE 

As mulheres nas zonas rurais da África Subsaariana são geralmente responsáveis pela coleta de água. Uma viagem de ida e volta para a fonte de água leva em média uma hora e 22 minutos em áreas rurais na Somália e uma hora e 11 minutos em áreas rurais na Mauritânia. (pág.144) 

A maioria das famílias na África Subsaariana e no Sul e Sudeste da Ásia utiliza combustíveis sólidos para cozinhar ou fogões tradicionais sem chaminé, afetando desproporcionalmente a saúde das mulheres. (pág. 147-150) 

POBREZA 

As famílias de mães solteiras com filhos pequenos têm mais probabilidade de serem pobres do que os pais monoparentais com filhos jovens. (pág.161-163) 

As leis existentes limitam o acesso das mulheres à terra e outros tipos de propriedade, na maioria dos países da África e cerca de metade dos países da Ásia. Elementos da desigualdade de gênero no que diz respeito aos direitos de herança foram identificados em 45 dos 48 países africanos analisados e em 25 dos 42 países asiáticos. (pág.169) 


A nova proposta de campanha lançada pela ONU para as mulheres em 2014, onde se chama a comunidade masculina a se unir contra as várias formas de violência à mulher, mostra qual o caminho o feminismo pretende seguir a partir de agora, ou a luta feminista. Este caminho é a união. 

No mundo atual as mulheres são alvejadas diariamente com várias ações nocivas à sua autoestima, identidade, tem sua imagem feminina relacionada a diversos produtos lhes renegando o papel de objeto e, mais, em grande parte do mundo o corpo feminino é sexualizado ou então tem seu corpo mutilado para que a mulher não sinta prazer algum em suas relações sexuais. 

Meninas são obrigadas a se casar em condições de escravas, são os chamados “casamentos servis”. Ano passado uma campanha Norueguesa chamou a atenção da comunidade internacional ao noticiar o casamento de uma bela menina branca de olhos azuis de apenas 12 anos com um homem de 37 anos. Todo o país se escandalizou e antes que atitudes fossem tomadas a campanha esclareceu que tudo não passava de uma mentira para chamar a atenção à realidade das meninas no Oriente Médio e África que são obrigadas a se casar nessas circunstâncias. 

No Brasil dentre os números alarmantes de violência sexual, doméstica e de uma sociedade extremamente machista (basta lembrarmo-nos das pesquisas do ano passado sobre como o brasileiro entende o estupro), caminhamos na sanção de uma nova lei a fim de proteger as mulheres vítimas de violência.O crime chamado de feminicídio (assassinato de mulheres) passa a ser considerado hediondo, dependendo apenas da sanção da presidente Dilma. A intenção é que as punições e as medidas preventivas se tornem mais efetivas, assim como a lei Maria da Penha trouxe uma diminuição de 10% dos casos de violência doméstica, pretende-se intimidar os agressores de forma mais eficaz. 

Links sobre esse texto: 

ONU para mulheres: http://www.unifem.org.br/







quarta-feira, 4 de março de 2015

A Querela do Feminismo

por LETÍCIA SANTOS


A escritora, filósofa e feminista francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) começa seu livro O Segundo Sexo, publicado em 1949, dizendo “Hesitei muito tempo em escrever um livro sobre a mulher, o tema é irritante, principalmente para as mulheres. E não é novo. A querela do feminismo deu muito que falar: agora está mais ou menos encerrada. Não toquemos mais nisso...” 

Simone pretendia que tal assunto fosse superado, no entanto, mais de 60 anos depois, o feminismo é um dos assuntos mais pertinentes. No tapete vermelho do Oscar, a atriz Patrícia Arquette fez um pequeno discurso de repercussão mundial sobre a equidade de gêneros, já que ainda precisamos defender salários iguais para as mulheres. Temos uma mulher na presidência de nosso país, mas ainda há falta de mulheres em posições representativas; a blogueira Luara Ramos, em seu texto Sem Feminismo não há democracia, falou sobre as dificuldades que as candidatas à presidência no ano de 2014 tiveram que enfrentar, sendo alvos de termos sexistas nas redes sociais; comentários sobre suas roupas, cabelo, tipo físico, algo que deveria ser completamente irrelevante em uma disputa eleitoral e que os candidatos homens não tiveram que enfrentar, afinal, ninguém se preocupou em tecer críticas sobre as roupas de Eduardo Jorge ou sobre o penteado de Aécio Neves.


Inovando para falar sobre o assunto, cansadas de décadas e décadas de propagandas machistas, que tratam a mulher como mais um objeto de consumo, publicitárias criaram a Cerveja Feminista – para homens e mulheres, já que os grandes empresários do ramo ainda não perceberam que seu produto também é consumido por mulheres. 

Outras campanhas, como Chega de Fiu fiu, contra o assédio sexual sofrido pelas mulheres em espaços públicos, em suas pesquisas informaram que 99% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio, enquanto 83% delas disseram que se sentiam constrangidas com a situação, e, entre os homens entrevistados no documentário realizado pela campanha, alguns disseram que “se a mulher não quer ser assediada que se vista de moletom”, e também “se não quer que mexam com você, não saia de casa”.


Essa resposta revela um pouco do incômodo que o feminismo causa em muitas pessoas, fazendo com que mulheres que defendem o feminismo na internet sofram ameaça de estupro, como foi noticiado em matéria publicada pela Folha de São Paulo.

Ainda existe muito medo em relação ao feminismo, a autonomia e a liberdade das mulheres assustam aqueles ligados à ideia de uma sociedade que explora e oprime. Feministas são chamadas de infelizes, mulheres que não conseguem “arrumar” marido somente por não terem escolhido a resignação, mas sim a luta. 

Em seu livro O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir falava de todas as mulheres, pois pretendia uma união. Simone lutou pela libertação das mulheres não somente com sua produção intelectual, mas com seu estilo de vida, que fugia dos padrões.

Formula como filósofa que há milênios a relação entre homem e mulher é estruturada da seguinte maneira: o homem vê, a mulher é vista; o homem é sujeito, a mulher é irremediavelmente objeto, outro, segunda; o homem é cultura, a mulher é natureza, prisioneira de sua condição fisiológica, desse ventre que a curva ao seu destino, a maternidade. 

Simone não nega as condições biológicas e sexuais que diferem o homem da mulher. Mas afirma: “o que toda a sociedade construiu sociologicamente, moralmente, profissionalmente sobre esta base, é algo que não tem nada a ver com diferença biológica. E é por isso que eu digo, ser mulher não é somente exercer seu sexo de uma certa maneira, mas é ser classificada de uma certa maneira na sociedade. Desde que as meninas são pequenas, que a sociedade fabrica as mulheres, os brinquedos, as brincadeiras e as leituras não são as mesmas. A formação profissional não é a mesma”, e nos pergunta: como Van Gogh poderia ter nascido mulher? Uma mulher não teria sido enviada em missão ao Borinage, não teria sentido a miséria dos homens como seu próprio crime, não teria procurado uma redenção; nunca teria, portanto, pintado os girassóis de Van Gogh. Sem contar o gênero da vida do pintor, os bordéis, os cafés, tudo que alimentava sua sensibilidade. Uma mulher jamais poderia ter se tornado Kafka: em suas dúvidas e suas inquietudes, não teria reconhecido a angustia do Homem expulso do paraíso. 

Séculos privando as mulheres de educação e liberdade como a dos homens, de experiências, o que perdemos? Quantas escritoras brilhantes? Artistas, empresárias? Cientistas? 

O grande recado de Simone é que biologia não é destino. Podemos escolher o jeito que viveremos nossa feminilidade. Não há um jeito único, não há um jeito certo.

Feminismo é a simples ideia de que mulher é gente, busca igualar homens e mulheres não somente em direitos, mas também em questões sociais. É a desconstrução de estereótipos, preconceitos e regras que escravizaram as mulheres durante anos. 

Feminismo é sobre liberdade e, como diz a escritora feminista Clara Averbuck, é difícil ser realmente livre nesse mundo.

segunda-feira, 2 de março de 2015

A arte de pensar racionalmente

A filosofia de Voltaire e os extremismos de hoje 

por LUISA DE QUADROS COQUEMALA


Toda vez que leio um texto ou escuto alguém expondo uma opinião, tento pensar racionalmente, buscando coesão e razoabilidade. Deve ser por isso que, pior do que não gostar, não entendo discursos fundamentalistas, preconceituosos e meramente acusativos. Sempre fica aquela sede em ligar os fatos e entender os pontos que convergem para uma determinada conclusão – contudo, tal sede não é saciada. 

Isso tudo porque, um belo dia, me deparei com dois volumes de contos e romances de Voltaire num sebo de Curitiba. Li-os avidamente e, ao terminar, o que mais me chamou atenção foi a forma como o autor trabalha com a ideia de razão, confirmando o que é, de fato, a boa literatura: ideias que transcendem o próprio tempo. 

Para Voltaire, o homem não nasce, mas torna-se um ser racional. No ser humano, a razão existe em potencial e se aperfeiçoa gradualmente, com trabalho e esforço: precisa ser desenvolvida para se realizar plenamente.

Além disso, o francês acredita que a razão improvisa-se lenta e gradualmente, demorando, no mínimo, vinte anos para começar a florescer de verdade. Em outras palavras: Voltaire vai na contra mão de Descartes. O autor da famosa máxima “penso, logo existo” acredita que a razão pertence à subjetividade humana e, destarte, inerente a nós. 

Locke é a grande inspiração de Voltaire. Ambos os filósofos creem que o homem diferencia-se do animal, primordialmente, por ter a capacidade de raciocinar. Ou seja, uma pessoa que tem o germe racional e não o desenvolve não passaria, no fundo, de um animal. Além disso, os dois concordam no ponto em que a razão é gradativa: quanto mais eu ler, pesquisar e aprender, mais eu irei desenvolver minhas capacidades racionais. Isto posto, a razão seria algo empírico-experimental, baseada principalmente na quantidade e na profundidade das experiências que vão se acumulando ao longo da vida. 

Como todo bom iluminista, Voltaire desconfia da força das paixões. Segundo ele, ainda, a razão funciona plenamente quando nossas faculdades estão em equilíbrio. Quando tomados de paixões e fanatismo, já não é a razão que impera. 

Por fim, ser racional, na concepção voltairiana, significa ser crítico. Desconfiar e analisar são procedimentos essenciais. Antes de aceitar qualquer ideia, deve-se fazer um exame minucioso dela. Consequentemente, Voltaire combate o dogmatismo e o abuso da autoridade através da crítica (racional, é claro). 

Por ter cursado com um pouco da maravilhosa escola de Voltaire é que me indigno com atitudes ou falas que prezam sobretudo por paixões cegas (e, portanto, não racionais). É por esse motivo que não entendo ódio gratuito quanto à orientação sexual, religião, etnia ou classe social. É por esse motivo que não entendo linchamentos e acusações pautadas em discursos vazios. É por esse motivo que não entendo como vereadores rejeitam quase 350.000 reais dados pela saúde e, em “defesa” própria, acusam infundada e cegamente. 

Em que medida a nossa liberdade não está à revelia destas pessoas e discursos? Voltaire ecoa nos meus ouvidos, como se o sentisse ao meu lado, meneando a cabeça e questionando, desacreditado perante o caos do mundo: “Até quando?”.