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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Não é de hoje que os tucanos são contra a educação

por SANDRO CHAVES ROSSI



Lembro do meu primeiro ano de faculdade, entre uma maçante aula e outra na faculdade de engenharia, sempre havia algum professor que fazia algum comentário negativo sobre a situação da universidade. Garanto que esse texto talvez teria muito mais repercussão se eu tivesse começado minha trajetória acadêmica em uma universidade federal durante o governo do PT, mas não, comecei a estudar na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, ou simplesmente Unesp, em 2012 - o ano talvez seria irrelevante, visto que o PSDB governa São Paulo desde 1994, dois anos depois de eu nascer.

A grande maioria das críticas feitas pelos meus professores era sobre a estrutura da universidade. Nós alunos dificilmente discordávamos deles, as aulas práticas feitas em laboratório mostravam bem a realidade que era tão criticada dentro das salas de aulas. Porém, o sucateamento da educação não se limitava somente às universidades públicas, elas se estendiam até o ensino básico. Nos últimos dias, vimos que o governador, Geraldo Alckmin, planeja fechar mais de 100 escolas no estado, o que é alarmante. O grande ponto nisso tudo é que é errado associar a ideia de sucateamento da educação somente ao governador do estado de São Paulo, o sucateamento é algo intrínseco ao PSDB.

Certa vez, Bresser Pereira, um dos fundadores do PSDB, disse em entrevista à Folha de São Paulo que o PSDB acabou guinando à direita por causa da oposição que fazia ao governo do PT. Claro que há inúmeras áreas a serem observadas, mas no que diz respeito à educação, o PSDB segue uma cartilha neoliberal muito antes do PT ser da situação, seja no governo federal ou no estadual. Exemplos não faltam, tanto de candidatos quantos de anos diferentes. As gestões tucanas têm sido um terror para os educadores de todo o país.

Na campanha de 2014, Aécio Neves fez uma grande propaganda sobre o "choque de gestão" de seu governo em Minas Gerais, que nada mais é, segundo ele mesmo, do que reduzir gastos na máquina pública com o intuito de viabilizar melhor os serviços básicos públicos. Não vamos entrar em detalhes de como o governo tucano fez esses cortes, mas em relação à educação, nem o mínimo de investimentos Aécio aplicou no seu governo, muito menos o de seu sucessor, Antônio Anastasia. Na gestão Aécio/Anastasia, a participação dos gastos com educação em relação às despesas totais do estado caiu de 19,36% em 2003 para 11,53% em 2012. Há vários anos o estado não cumpre o investimento mínimo em educação determinado pela Constituição, que é de pelo menos 25% da receita resultante de impostos. Aécio diz que investiu mais, reafirmando isso nos balanços anuais de governo que indicam percentuais superiores a 25%: 28,12% em 2009, 27,28% em 2010, 30,6% em 2011 e 32,59% em 2012. O que Aécio não diz que a administração estadual inclui indevidamente no cálculo dos gastos em educação outras despesas que não estão diretamente relacionadas à manutenção e ao desenvolvimento do ensino, como o pagamento de aposentadorias para profissionais inativos do setor. Com o ajuste correto, os governos de Aécio e Anastasia não conseguem chegar no mínimo estabelecido pela Constituição, como 20,15% em 2009, 19,79% em 2010, 21,71% em 2011 e 22,95% em 2012. Não é à toa que Fernando Pimentel, candidato do PT pelo governo mineiro em 2014, ganhou as eleições com um grande apoio dos profissionais da educação.

Aproveitando o embalo das eleições de 2014, temos também no Paraná Beto Richa, que foi eleito ainda no primeiro turno. Mal começou 2015 e Richa enfrentou a classe do professorado paranaense, cancelou reajustes, quis mexer na aposentadoria dos profissionais da educação e, quando houve revolta, agiu com truculência contra os manifestantes. A ação da Polícia Militar contra os professores gerou uma revolta nacional impossível de ser camuflada, tanto que as mobilizações para que Richa fosse responsabilizado foram grandes e então o Ministério Público do Paraná (MP-PR) ajuizou uma ação civil pública contra o governador por atos de improbidade administrativa. Se engana quem acha que isso foi novidade no Paraná, Alvaro Dias, hoje senador pelo PSDB, soltou a cavalaria da PM contra os professores em 1988, quando o mesmo era governador do estado. O ato foi tão truculento que até hoje é lamentado pelos educadores não só do Paraná, mas de todo o país.

Temos como maior exemplo desse desastre tucano na educação o seu maior reduto: São Paulo. Professor em São Paulo já sofreu de tudo na mão dos governantes. Se fossemos falar de tudo que o PSDB fez para os educadores em São Paulo, teria texto no Desafinado até 2017. Não vou entrar muito em detalhes, deixarei essa árdua missão para os meus amigos professores que aqui também escrevem e são (ou foram) funcionários do governo estadual paulista. Um trecho de um texto do filósofo Vladimir Safatle na Folha de São Paulo chamado "Tucanistão" reflete bem o que são 21 anos de governo tucano em um estado:

"(...) Alguns podem se impressionar com o fato de tanto fracasso não abalar nosso amor por nossa dinastia. É que eles ainda acham que devemos avaliar nosso líderes por aquilo que eles são capazes de fazer, mas nós descobrimos o valor do amor incondicional. Nós os amamos porque… nós os amamos. Por isso, nossa terra é o lugar da pura felicidade. O Tucanistão é a locomotiva do progresso imaginário, alimentada por choques tortos de gestão.”


Já que estamos falando dos "primórdios" tucanos, vale a pena compartilhar também uma lista com 13 indicadores feitos por Lauro Mattei, professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sobre as universidades na época dos mandatos seguidos de Fernando Henrique Cardoso e o que elas não tinham comparadas aos dois mandatos seguidos de Luís Inácio Lula da Silva:

1) Contratação de novos professores: Durante 5 anos (1997-2001) foram proibidas quaisquer contratações de professores, ao mesmo tempo que mudanças nas leis sobre as IFES levaram a uma enorme quantidade de pedidos de aposentadorias precoces;

2) Vagas: ao longo dos 8 anos do governo FHC não houve nenhuma expansão de vagas nas universidades públicas federais, fazendo com que a escala social de acesso ao ensino público e gratuito se verticalizasse cada vez mais;

3) Novas universidades: a durante os 8 anos não foi criada nenhuma nova universidade federal;

4) Novos campi: o número de campi federais praticamente se manteve inalterado ao longo dos 8 anos de governo FHC;

5) Orçamento: durante todo o governo FHC ocorreram cortes sequenciais de verbas orçamentárias, tanto para infraestrutura como para as atividades de ensino, pesquisa e extensão;

6) Salários de professores: por mais de 5 anos os salários dos docentes das IFES ficaram congelados levando a perdas salariais significativas para o conjunto da categoria, obrigando a mesma a desencadear greves praticamente todos os anos do Governo FHC;

7) Programas de qualificação docente: restrição enorme de bolsas para programação de doutorado e de pós-doutorado visando qualificar melhor a mão-de-obra docente;

8) Bolsas aos estudantes de pós-graduação: restrição enorme de bolsas de estudos, mantendo-se, inclusive, os valores congelados por muitos anos;

9) Bolsas aos estudantes de graduação: restrição enorme de bolsas para estudantes de graduação, especial nas áreas de iniciação científica e de extensão;

10) Programa internacionais de intercâmbio para os estudantes de graduação: nenhuma ação para este segmento estudantil foi implementada ao longo de 8 anos. Ao contrário, até mesmo as poucas bolsas foram reduzidas.

11) Técnicos Administrativos em Educação: restrição sequencial de contratações de novos servidores com implicação negativa sobre o funcionamento das universidades;

12) Salários do TAEs: arrocho salarial durante todo período com perdas salariais ao longo dos dois mandatos do governo FHC;

13) Expansão do ensino superior privado: uma política clara de opção pelo ensino superior privado no país, inclusive com o ministro da Educação virando consultor das instituições privadas de ensino superior e do Banco Mundial.

Mesmo sendo o maior partido de oposição, o PSDB sempre pecou muito em relação à educação. Não sei vocês, mas eu não voto em quem é contra a educação, tampouco em quem bate em professor. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Como é bom ser tucano no Brasil

Maus feitos administrativos, desmandos e corrupção: a crise que parece não ter fim e a blindagem da imprensa ao governo Richa

por OSVALDO RODRIGUES JUNIOR

Beto Richa acompanhado de Luiz Albi e Marcelo Tchel Caramori, presos na Operação Voldemort


Elevado à categoria de província no ano de 1843, o Estado do Paraná passa pela maior crise institucional e política de sua história. Já é possível afirmar que nenhum dos 56 governos do período republicano demonstrou tamanha incapacidade administrativa e acumulou tantos casos de corrupção. 

Reeleito em 1º turno com 55,67% dos votos, Beto Richa aprovou um pacote de medidas de austeridade, reagiu com violência a greve de servidores estaduais e viu seu governo envolvido em casos de corrupção. Somados os fatos, a aprovação do governador, que era de 64%, despencou para uma rejeição de 76% em março. 

Em janeiro, mais de 20 pessoas foram presas na Operação Voldemort, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO), envolvidas em casos de corrupção na Receita Estadual de Londrina, fraude em licitação e exploração sexual. Entre os detidos, o primo de Beto Richa, Luiz Abi Antou. 

No mês seguinte, o governador implantou o pacote de medidas de austeridade nominado por ele como “freio de arrumação”, que consistia no aumento das taxas de IPVA em 40%; do ICMS da gasolina de 28% para 29%; e no ataque aos direitos trabalhistas, como auxílio transporte, aumentos salariais por tempo de serviço, além de uma mudança de regime na aposentadoria dos servidores, com a extinção do Fundo Previdenciário da Paraná Previdência e a criação da Fundação PREVCOM Paraná, alterando o teto máximo para R$ 4.600 reais mensais, sendo os servidores responsáveis pelo pagamento de um fundo complementar além dos 11% retidos no salário. 

O servidores estaduais reagiram ao “pacote de maldades” de Richa deflagrando uma das maiores greves da história do Estado. No dia 29 de abril, o projeto de lei de alteração do regime de previdência foi enviado para a Assembleia Legislativa do Paraná, porém o que marcou a data foi a truculência do governo Richa, que massacrou os servidores do Estado. O episódio custou os cargos do Secretário de Segurança Pública - Fernando Francischini -, do comandante da Política Militar - César Vinícius Kogut - e do Secretário de Educação – Fernando Xavier Ferreira -, tudo para blindar o governo Richa. 

Em maio, por meio de acordo de delação premiada, Luiz Antônio de Souza, um dos acusados no caso da Receita Estadual afirmou que a campanha de Beto Richa foi abastecida com a propina. Segundo o auditor, R$ 2 milhões de reais foram repassados a Márcio Albuquerque para a campanha de reeleição de Richa. Ainda envolvendo a Receita Estadual, Fernanda Richa, esposa de Richa, foi acusada de receber R$ 2 milhões de propina para promover auditores. Novamente o dinheiro seria utilizado para a campanha de reeleição. 

Na última terça-feira (21), a Polícia Civil do Paraná prendeu 5 pessoas na Operação Quadro Negro, que investiga desvios de recursos públicos destinados a construção e reformas de Escolas Públicas Estaduais. Além de executivos da empresa Valor, responsável pelas obras, foi preso também o ex-diretor do Departamento de Engenharia, Projetos e Orçamentos (Depo) da Secretaria de Estado da Educação, Maurício Jandi Fanini Antônio, velho conhecido dos tucanos e frequentador de cargos de alto escalão nos governos Richa. 

Apesar de todos os maus feitos administrativos, dos desmandos e dos casos de corrupção, Beto Richa permanece no cargo de governador do Estado do Paraná sem ouvir uma panela ou mesmo ter campanha pelo impeachment noticiada pela imprensa estadual. Ao mesmo tempo, Dilma Rousseff é massacrada pelos meios de comunicação e vê a campanha pelo impeachment rondar o Planalto desde os primeiros meses do mandato. 

Essa incongruência se deve à blindagem da mídia em relação aos governos do PSDB, constatada por especialistas da área em casos como o Mensalão Mineiro e o caso de cartel das licitações do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). No Paraná não é diferente, conforme denunciado pelo Deputado Estadual Dr. Rosinha do PT. 

Abraços, 
Osvaldo. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Brasil bitolado

O absurdo projeto de lei sobre “Assédio ideológico”

por JESSICA LEME



Logo após o resultado das eleições de 2014 já se sabia que o Brasil teria um governo bastante conservador. Desde então temos vistos projetos, ideias, entre outras situações extremamente retrógradas, serem tiradas das gavetas da política brasileira mesmo estas estando há décadas esquecidas, ou talvez pelo o que se percebe nem tão esquecidas assim.

A nova proposta dos últimos dias é a de criminalizar o que o senhor deputado Rogério Marinho (PSDB) chama de “assédio ideológico”. Segundo ele este “crime” é caracterizado quando um aluno é coagido a pensar de acordo com seu educador (leia-se professor), ou seja, na opinião do deputado os professores influenciam seus alunos a terem determinados posicionamentos político-ideológicos favoráveis a determinados partidos políticos.

O projeto foi criado segundo o deputado tucano a partir da leitura do Caderno de Teses do Partido dos Trabalhadores. Este documento redigido por políticos do partido, naturalmente um texto ideológico, feito única e exclusivamente para o estudo dos partidários num Congresso do PT que ocorrerá em junho deste ano. O deputado cita trechos do texto onde comenta-se que só haverá uma efetiva mudança social no Brasil se ela vier acompanhada de uma mudança cultural para a grande maioria garantindo assim valores hegemônicos, democráticos e socialistas. Numa grande demonstração de ignorância o deputado acredita que esses Cadernos de Teses, reitero, material do partido e só para o partido, estarão em breve nas escolas para doutrinação dos alunos.

A escola pública há muito tempo tem garantido pela Constituição o dever de propagar todas as formas de pensamento, religião, etc. Todos os artigos relacionados à educação buscam assegurar que nada seja usado como forma de doutrinação dentro das escolas, e na prática isso verdadeiramente ocorre. Claro que estamos tratando de professores que no exercício de seu trabalho naturalmente deixam transparecer suas preferências pessoais e posicionamentos em diversos assuntos do dia a dia, viver é se posicionar e não necessariamente doutrinar por se mostrar convicto em seus valores e escolhas.

O projeto vai mais além e pretende ser inserido no ECA, assegurando aos alunos o direito de se posicionar contrários àquilo que estão sendo ensinados, e mais, prevê a criminalização e até mesmo detenção de educadores que se prestem ao serviço de alienação dos alunos. Leia trecho do projeto:

“Art. 146 – A. Expor aluno a assédio ideológico, condicionando o aluno a adotar determinado posicionamento político, partidário, ideológico ou constranger o aluno por adotar posicionamento diverso do seu, independente de quem seja o agente: 

Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano e multa. 

§ 1°. Se o agente for professor, coordenador, educador, orientador educacional, psicólogo escolar, ou praticar o crime no âmbito de estabelecimento de ensino, público ou privado, a pena será aumentada em 1/3. 

§ 2º. Se da prática criminosa resultar reprovação, diminuição de nota, abandono do curso ou qualquer resultado que afete negativamente a vida acadêmica da vítima, a pena será aumentada em 1/2”.


Agora a questão que fica é, como vai se avaliar o tal “assédio ideológico”? Fica claro que a intenção do parlamentar é meramente político-partidária e não está atrelada à preocupação de desenvolvimento intelectual ou acadêmico dos jovens, e sim em repreender professores que se posicionem politicamente contrários ao que ele julga ser correto.

Naturalmente que num ambiente educacional a prática do debate se estabeleça, é a partir da diversidade de ideias que o conhecimento se mostra, se forma, e faz com que o aluno perceba a necessidade de questionar a sociedade na qual vive e mais questionar aquilo que aprende, que escuta e que lê. Quando de certa maneira estabelecemos normas para o debate, para o pensar em sala de aula no sentido de censurar determinados temas como Comunismo, Socialismo ou até mesmo temas que possam ofender religiões como o Darwinismo e a Evolução e teorias como o do Big Bang estamos cerceando o poder de discussão e conhecimento de toda uma sociedade em formação.

Há muito já tivemos professores perseguidos e censurados, porém, estávamos num regime de governo caracterizado por uma Ditadura Militar. Acuar professores em seu exercício de trabalho usando de uma pecha de doutrinadores não fará nossa educação e senso crítico se desenvolverem, isso é mais uma das tantas ações retrógradas que tem surgido no Brasil nos últimos meses.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Rossoni e a violência simbólica contra a mulher na política

Como Pierre Bourdieu nos ajuda a compreender a dominação masculina na política brasileira e a agressão sofrida pela professora Adriane Sobanski, chamada de "biscate" pelo deputado tucano Valdir Rossoni. Com exclusividade, ela detalha os momentos de terror vividos no Paraná

por OSVALDO RODRIGUES JUNIOR

Professoras da rede estadual do Paraná, Simone Baroni, Adriane Sobanski, Valéria Arias e Cynthia Werpachowskk em manifestação de apoio à greve

Pierre Bourdieu, na obra A violência simbólica, apresenta os diferentes tipos de dominação simbólica existentes no mundo social. Dentre elas a dominação de etnia, gênero, cultura e língua. Todas elas produzem o que ele conceitua como violência simbólica, ou seja, as relações subjetivas de dominação. Nos interessa, particularmente neste momento, a dominação de gênero ou a dominação masculina.

Importante iniciar a discussão indicando que “as estruturas de dominação não são a-históricas”, ou seja, a dominação é “produto de um trabalho incessante (e, como tal, histórico) de reprodução”. Neste sentido, é fundamental compreendermos o papel das instituições na constituição histórica da dominação. 

No caso da masculina, destacam-se duas instituições: a Igreja e a família. Desde o mito da origem e de Adão e Eva, a Igreja patrocinou a construção da dominação masculina. Isso porque, ao apresentar a mulher enquanto criada de uma parte do homem, promoveu a diminuição do gênero feminino, enquanto que ao introduzir a ideia de Eva como culpada pelo pecado original delegou às mulheres uma espécie de lógica da maldição de gênero. Não só esta, mas outras passagens da Bíblia promovem de maneira explícita a submissão do gênero feminino. Na família cansamos de experienciar pais e mães diferenciando brincadeiras e trabalhos de homens e mulheres, quando não determinando o que cada gênero deveria fazer. 

Tais instituições promovem a constituição de um habitus, que seriam formas de pensar e agir produtos das formas introjetadas de pensamento e ação. Ou seja, se a Igreja e a família exprimem formas de pensamento e ação que constituem a dominação masculina, tal dominação se torna natural e passa a fazer parte do habitus dos agentes, que reproduzem historicamente a violência simbólica. 

A reprodução da dominação masculina pode ser observada em três práticas: machismo, sexismo e a misoginia. Segundo a socióloga Mary Pimentel Drumont, o machismo "é definido como um sistema de representações simbólicas, que mistifica as relações de exploração e dominação, de sujeição entre o homem e a mulher". Pertencem a este sistema o sexismo, enquanto atitude de discriminação em relação às mulheres, e a misoginia, enquanto sentimento de aversão e repulsa às mulheres. 

Na política brasileira, a dominação masculina pode ser evidenciada em números. Mesmo com o aumento da presença de mulheres no Congresso Nacional, apenas 10% dos cargos eletivos são ocupados por elas. Atualmente são 51 deputadas federais, enquanto em 2010 eram 45, num total de 513 cargos. Isso significa um aumento de 1,1% entre 2010 e 2014, pouco para um país democrático. Na última lista da União Interparlamentar (UIP), que analisou a participação de mulheres na vida política em 189 países, o Brasil ocupa a 129º posição. 

Além da falta de representatividade, as mulheres são costumeiramente vítimas da violência simbólica produzida pelo machismo, sexismo e misoginia no universo político. Cargo máximo da República, a presidenta Dilma Rousseff foi por várias vezes vítima de práticas sexistas e misóginas. Poderíamos citar como exemplos a patética crítica ao vestido utilizado pela chefe do executivo na cerimônia de posse ou o título de “vaca”, dentre outros, dado à presidenta com a naturalidade de quem reproduz a dominação masculina no dia a dia. Ícone do pensamento machista, o deputado federal Jair Bolsonaro do Partido Progressista - PP afirmou no plenário da Câmara que não estupraria a deputada Maria do Rosário do Partido dos Trabalhadores – PT porque “ela não merecia”. Recentemente, a deputada do Partido Comunista do Brasil – PC do B, Jandira Feghali foi vítima de violência física na Câmara dos Deputados por parte dos deputados Roberto Freire do Partido Progressista – PPS e Alberto Fraga do Democratas – DEM. 

Na semana passada, a professora Adriane Sobanski foi xingada pelo presidente estadual do Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB do Paraná, deputado Valdir Rossoni, de “biscate”. A professora comenta que leciona “História há 20 anos, porém há apenas 6 como servidora estadual. Trabalhei por 17 anos na iniciativa privada, mas meu sonho sempre foi a escola pública!”. A docente atualmente é aluna do Doutorado em Educação na Universidade Federal do Paraná. 

Sobrevivente do massacre promovido pelo governo Beto Richa no último dia 29 de abril, Adriane relatou o episódio: “Cheguei ao Centro Cívico por volta das 9h da manhã e já me vieram lágrimas aos olhos. A quantidade de policiais, armas de bala de borracha, máscaras de gás, escudos e cassetetes era enorme. Senti que naquele dia haveria sangue. Além disso, os 2 helicópteros que sobrevoavam muito baixo sobre a praça ajudavam a criar um clima mais tenso. Estava com um grupo de amigas quando as bombas começaram a ser jogadas sobre as pessoas. Mesmo assim, levamos cerca de 6 minutos para sair de onde estávamos. Corremos para o bosque e já era impossível respirar. Usamos muito vinagre. De repente, lançaram bombas em nossa direção e corremos novamente. Uma bomba caiu sobre um carrinho de pipoca e todos, de fato, se apavoraram por causa do bujão de gás. Corremos em direção ao bosque, tomado pela fumaça das bombas, até que conseguimos nos aproximar da prefeitura e lá ficamos, por duas horas, vendo e ouvindo os horrores. Como historiadora sempre falo sobre ditadura e revoluções. Jamais imaginei que, um dia, vivenciaria a ditadura e a violência daquela forma. Durante uns 4 dias não conseguia parar de chorar. Mesmo hoje, quando vejo vídeos daquele dia ainda choro muito”.

Após a experiência traumática, Adriane visualizou uma postagem do deputado Valdir Rossoni, na qual ele fazia uma crítica ao lema “Pátria Educadora” do governo federal. Indignada, a professora comentou que o deputado deveria ter vergonha da situação da educação pública no Paraná. A professora relata que “no dia seguinte, ao espiar o Facebook pelo celular, vi que havia uma mensagem. Ao clicar apareceu um aviso de que aquela mensagem não poderia ser respondida. Ao clicar no OK, vi a mensagem do deputado. Corri ligar o computador para fazer o print da mensagem e divulguei em minha página e na página Professores do Paraná”. Na mensagem o parlamentar do PSDB escreveu: “pelo seu desrespeito imagino o que vc faz e sua casa vai procurar sua turma biscate”. 
Print da mensagem enviada pelo deputado federal Valdir Rossoni para a professora Adriane Sobanski
O ato misógino do parlamentar provocou o anúncio de projeto de lei para punir injúria de gênero, de autoria da senadora Gleisi Hoffmann do PT. Porém, a pergunta é: “será que uma lei pode modificar a cultura de dominação masculina no Brasil?”. Conforme Bourdieu, para acabar com a estrutura de dominação simbólica é fundamental primeiramente romper com a cumplicidade muitas vezes observada entre dominado e dominador. O caso da professora Adriane é um exemplo de conduta que procura desnaturalizar o sexismo ao denunciar com veemência o fato utilizando as mídias. Contudo é fundamental “uma transformação radical das condições sociais de produção das tendências que levam os dominados a adotar sobre os dominantes e sobre si mesmos, o próprio ponto de vista dos dominantes” para desnaturalizar a dominação masculina. Enquanto isso, cumpramos nosso papel de denunciar todos os atos machistas, sexistas e misóginos. 


Abraços,
Osvaldo.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O cinismo tucano

por OSVALDO RODRIGUES JUNIOR


Aécio Neves processou 66 pessoas responsáveis por contas no microblog Twitter, sob a alegação de que os mesmos criavam conteúdo ilícito, ofensivo e mentiroso, constituindo uma "rede virtual de disseminação de mentiras e ofensas" durante a corrida presidencial. O candidato afirmava que os blogueiros eram pagos para atacar os candidatos e disseminar conteúdo negativo sobre eles. 

Altamiro Borges e Pablo Villaça, dois dos processados por Aécio Neves, se defenderam. O primeiro afirmou que Aécio “é o rei da censura em Minas Gerais e, se fosse na época da ditadura, ele poderia ser um grande general”. Enquanto o segundo publicou que “Em 2014, AE-5 Neves ainda não entendeu o que é democracia e liberdade de expressão. Quer me censurar judicialmente. Não adianta querer me calar judicialmente, @AecioNeves. Moro em MG, conheço sua gestão pavorosa e tenho PLENO DIREITO de gritar isso”.

Passados cerca de 6 meses da corrida eleitoral, o jornal Folha de São Paulo denunciou que o governo do Estado de São Paulo pagou R$ 70 mil reais mensais entre outubro de 2014 e março deste ano para o blogueiro Fernando Gouveia. Mais conhecido como “Gravataí Merengue”, o responsável pelo site Implicante, que tem como principal objetivo divulgar conteúdo antipetista, negou que o dinheiro tenha origem ilegal. O mesmo afirmou ainda que a sua empresa, Appendix, foi subcontratada pela Propeg para realizar serviços para o governo do Estado. 


Além de Fernando, João Dória Junior, empresário responsável pelo movimento “Cansei” durante o governo Lula e defensor ferrenho do impeachment de Dilma Rousseff, o tucano recebeu entre março e setembro de 2014, R$ 595.175,00 por meio da Doria Editora.

Dessa forma, o PSDB que promoveu uma verdadeira “caça as bruxas” durante a corrida presidencial “prova do próprio veneno”, ao utilizar dinheiro público para financiar blogs e publicações de partidos. No mínimo apresenta lastros de uma hipocrisia que o acompanha historicamente, ou seja, do velho bordão “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.