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quinta-feira, 25 de junho de 2015

A simbologia do ódio racial

por JESSICA LEME



A história americana está recheada de crimes raciais e civis, mas, não sejamos hipócritas, não só a deles. No século XIX durante a Guerra Civil Americana e a divisão de ideais que rachou o país entre os que lutavam pelo fim da escravidão (Norte) e aqueles que sequer consideravam a ideia de que um negro era um cidadão americano (Sul).

Naquele momento da história, ainda muito inflamados pelas ideias iluministas trazidas pela Revolução Francesa, de igualdade entre os homens e principalmente de liberdade, somava-se o grande desenvolvimento industrial que estava tomando a Europa e notoriamente interessou aos Estados Unidos, que também precisavam aumentar seu mercado consumidor.

Lincoln pagou o preço pela abolição da escravatura, e, mesmo após ser assassinado, a Guerra Civil ainda permaneceu, assim como o racismo dos estados do Sul americano se intensificou. Vieram outros na luta pelos direitos civis a partir da década de 1950, Malcon X, Rosa Parks, Luther King, buscando direitos básicos aos afrodescendentes. 

Na semana passada, um jovem branco foi detido após ter cometido um crime terrorista numa Igreja matando nove pessoas, igreja essa que no passado foi palco de discussões sobre direitos as minorias e é considerada um símbolo nacional de luta das pessoas negras. Com ele encontraram-se diversas fotografias e objetos relacionados a grupos racistas, um destes objetos a bandeira dos Estados Confederados (Criada para a Guerra Civil Americana como representação dos estados do sul, contrários a abolição da escravatura) - esta mesma bandeira ainda hoje é usada pelo estado do Mississipi. 

Após o atentado terrorista motivado por ódio racial, segundo o próprio assassino que pretendia iniciar uma guerra entre brancos e negros, voltou à tona novamente uma discussão já feita no passado sobre o quanto a bandeira do estado simboliza ainda a ideia de supremacia branca e de incentivo ao racismo. Ainda no inicio dos anos dois mil o estado do Mississipi promoveu um plebiscito para decidir se a bandeira continuaria a mesma. Com a vitória, o símbolo da Guerra Civil permaneceu.

O poder dos símbolos é evidente ainda mais em nossa sociedade de imagem. Sabemos que em vários momentos históricos e principalmente em governos e grupos que pregam ideias de supremacia usaram de imagens e símbolos para causar o sentimento de integração dos grupos (nazismo, fascismo, URSS) etc.

O grupo racista Ku Klux Khan, criado ainda nos finais da Guerra Civil, trazia como símbolo a bandeira dos Estados Confederados, naturalmente que ela se tornou um elemento de identidade daqueles que acreditavam na ideia de superioridade branca, assim como pregavam o assassinato e perseguição de pessoas negras promovidos pelo grupo. O jovem preso pelo atentado à Igreja segue sob suspeita de pertencer a esse grupo ou similares que ainda resistem ao tempo, propagando seus ideias de forma discreta, porém, devastadora.

O fato é que mesmo com Obama sendo o primeiro presidente negro dos Estados Unidos pouco se tem feito para conter os avanços dos crimes contra os negros norte-americanos que vem sofrendo seguidos ataques racistas, ataques estes que tem ganhado bastante notoriedade na mídia novamente frente às passeatas e manifestações de setores da sociedade civil que não querem mais viver os horrores dos anos 1960.

Mesmo os EUA sendo considerados modelo de desenvolvimento humano a realidade das comunidades negras e latinas é bem diferente da população branca que é nove vezes mais rica que as demais. Os negros e latinos também fazem parte das estatísticas de crimes, de maior mortalidade, entre outros índices que só reafirmam que mais que respeito e liberdade os povos imigrantes e os negros ainda terão que lutar muito para conquistarem efetivamente a América.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Brazilian way of Americanization

por LUCAS SANTOS


Nós já avançamos nas negociações com os outros países da América, em prol do comércio livre e justo em todo o hemisfério. O futuro de milhões de pobres depende desses resultados. Os países que adotam o comércio livre se desenvolvem mais facilmente que aqueles que adotam o protecionismo.
(George W. Bush, 2005, Brasília)


O processo que será denominado aqui de americanização tem sua gênese no cenário pós-guerra da década de 1940 e consiste basicamente na apropriação de uma gama de aspectos culturais importada dos Estados Unidos da América por grande parte dos conjuntos culturais acidentais, porém, trataremos aqui do caso específico do Brasil, que nas mãos de Vargas foi inundado pelo American Way of Life.

A americanização do ocidente tem seus primórdios com as políticas de expansão de mercado promovidas por duas jogadas do governo estadunidense, sendo a doutrina Truman e o plano Marshal, ambos visando a ascensão dos E.U.A. a potência mundial, em um cenário muito propício.

Ambas as manobras foram, grosso modo, muito bem sucedidas, visto que o mercado consumidor do país cresceu, não apenas internamento, mas em nível global, e várias alianças surgiram possibilitando o enfrentamento direto de seu, então, novo inimigo vermelho: a União Soviética.

Para o governo Vargas a aliança com o novo chanceler global foi vantajosa, visto que com ela veio à possibilidade de gestar um empreendimento estatal, materializado na CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), marca do progresso, dado o pensamento positivista predominante no contexto.

Para a “plebe”, no entanto, o quadro é um pouco complicado. Na questão cultural, temos sim algumas questões a serem pontuadas, visto que os “enlatados americanos” vieram compor o cotidiano e ditar tendências, sobretudo a partir de meados da década de 1950, esse fator, porém, não causou muitas alterações no que podemos tratar, de forma um tanto pejorativa, por cultura popular, visto que está se associa muito mais as matrizes do que ao que está em circulação no mercado, pois seus mantenedores geralmente não tem tanto acesso aos bens de consumo supérfluos.

É nas camadas um tanto mais abastadas da sociedade que sentimos a influência direta dos ideais estadunidenses, visto que a cultura do consumo chegou com vigor e ficou. E grande parte do que esse consumismo pede não rola nas esteiras das fábricas brasileiras, sendo, então importado de quem produz com excedente, neste sentido os E.U.A. investem em uma postura All in para a exportação, visto o inchaço de seu mercado interno, o que traz uma dependência mercadológica um tanto desvantajosa para o Brasil.

Tudo isso se baseia no ideal da grama mais verde do vizinho, que no caso é mais verde mesmo, visto a prevalescência do dólar comercial estadunidense como moeda corrente do mercado internacional.

Mas como nem tudo são flores, a americanização também importou os monstros gerados pela política trumaniana, incorporados nos movimentos de contestação, sobretudo do conjunto de práticas tradicionalmente designado como cultura jovem. Logo a Bossa Nova se vê subvertida em Tropicália, o que foi essencial para a quebra de alguns valores retrógrados da sociedade brasileira. As flores tropicais, porém, assim como seus sucessores “eruditos populares”, brotaram apenas onde se podia pagar e passaram a figurar no meio da Música Popular Brasileira, que traz em sua genealogia dois ultrajes ao ouvinte/leitor, afinal nada tem de popular, pois se veicula por meio de grandes selos que “mercenarizam” a arte e nem de brasileira, pois suas influências são, em grande parte, estrangeiras.

O que pouco se discute, no entanto, sobre a influência estadunidense no Brasil, está ligado a um período intensamente debatido que vai das trevas ao heroísmo no imaginário social e pode ser descrito como a Ditadura Civil-Militar brasileira. Isto porque a assimilação dos ideais estadunidenses pela sociedade, não abre espaço para tal associação. Se fizermos um raciocínio breve, porém, a possível ligação dos fatos está feita, pois o principal argumento dos militares e das classes médias brasileiras que apontam a intervenção militar como algo que salvou o país é o de se os militares não assumissem o poder a “ameaça vermelha” tomaria conta do território, discurso esse largamente difundido por todos os meios a que a mão do Estado estadunidense se estendeu.