terça-feira, 14 de julho de 2015

Passagem para Ararat: uma viagem para dentro de si mesmo

por LUISA DE QUADROS COQUEMALA

"O céu lá fora estava claro, brilhando com suas estrelas. Mas naquele exato momento a escuridão do mundo parecia dominar tudo, como o sentido das vozes que não haviam sido ouvidas."


Quando se lê Passagem para Ararat uma coisa fica clara: eis um livro que faz refletir. Michael J. Arlen, seu autor, é filho do também escritor Michael Arlen (que, infelizmente, não tem a atenção devida de nossos editores). Contudo, Michael Arlen também pode ser reconhecido como Dikran Kouyoumjian – seu “nome armênio”.

De fato, Michael Arlen foi um escritor de naturalidade armênia. Muito jovem, mudou-se para a Inglaterra e, posteriormente, para os Estados Unidos. Seu filho percebeu desde cedo a dificuldade e discrição que o pai tinha quando o assunto era sua nacionalidade armênia. Consequentemente, Michael J. Arlen também acabou por conviver com uma questão complexa, que será o ponto de partida e guia de todo o livro: “Numa determinada época de minha vida, parti numa viagem para descobrir por mim o que significa ser um armênio”. Esta é a base do enredo límpido e autobiográfico que Michael compõe. 

Diante das dúvidas a respeito de sua origem e frustrado com a distância intransponível que os livros de história podem trazer, Michael e sua esposa viajam à Armênia depois do conselho de um conhecido (também de origem armênia). Michael chega à terra paterna e não parte apenas em busca de simples respostas, mas também de um autoconhecimento mais profundo. Contudo, o tipo de conhecimento pessoal que ele busca está ligado diretamente com sua ascendência armênia e, assim, com toda a questão da história e cultura de tal país – e é aí que ele consegue estruturar de maneira brilhante o enredo.

Ao mesmo tempo em que passa por diversas experiências e conhece pessoas no mínimo curiosas, como o guia Sarkis, Michael J. Arlen contempla através de livros a história armênia - e, estando em território armênio, as histórias que outrora pareciam tão distantes começam a se tornar palpáveis. De uma maneira didática e compenetrada, Michael relata, juntamente com suas experiências pessoais, todo o percurso traçado pelo país: a antiguidade, com os reis de Nairi; a ascensão do Império Romano e sua relação com o território armênio; a participação dos armênios nas cruzadas; o início das relações entre armênios e turcos etc. É, sem dúvidas, uma bela aula de história. 

Arlen, contudo, cresceu nos Estados Unidos e, em detrimento disso, há uma dificuldade visível em se reconhecer como armênio, mesmo sabendo das raízes de seu pai. Ao mesmo tempo, porém, ele sente que tem uma relação com aquelas pessoas, aquela terra.

Michael nota, sobretudo, a incrível recorrência com que os armênios falam sobre seus sofrimentos. O autor, então, procura se aprofundar nessas questões. Poderíamos afirmar que o “ponto de virada” da história acontece justamente no momento em que Michael lê a respeito dos maus tratos que os armênios sofreram. Primeiro, com uma matança ocorrida em 1894; em seguida, com o destruidor genocídio que aconteceu em 1915, durante a primeira guerra mundial, deixando mortos um milhão e meio de armênios – que, por conta disso, perderam grande parte de suas terras e bens. Em seguida, ele também se depara com a negligência e esquecimento por parte do mundo em relação ao banho de sangue que foi o genocídio armênio.

Através de reflexões bem formuladas, é impressionante notar como Michael passa a se ver como um armênio a partir do momento em que entende a dor e riqueza cultural de seu povo. É por isso que, logo na primeira frase, escrevi que é um livro que faz pensar: a partir do momento em que Michael é capaz de entender todas injustiças e silêncio acerca do primeiro genocídio do século XX, ele entende a “mancha” que se carrega por ser armênio – algo que não será deixado para trás enquanto a devida atenção não for dada ao caso.

Assim, a questão da memória é colocada brilhantemente diante do leitor. Os armênios são indubitavelmente um povo que possui memória e que clama por justiça. E fica clara, então, a relação entre a memória, a história de um povo e o reconhecimento pessoal que isso pode acarretar.

Fica exposta no livro a importância de se conhecer a história de seu próprio país para, então, o próprio indivíduo também se conhecer. Ao buscarmos o entendimento histórico, conseguimos conservar uma memória, lutar por nossos direitos e reconhecermos uma parte de quem somos. De modo que, por mais que a narrativa se passe na Armênia, a mensagem que o livro transmite se torna válida até para o próprio Brasil - país que reluta em falar a respeito de culpas como as da ditadura e que vota projetos de lei (como a maioridade penal, por exemplo) sem levar em conta as estruturas sociais ligadas inevitavelmente à própria história e formação do país. As discussões que o livro suscita mostram aquela universalidade romanesca que transforma um simples relato em um belo livro.

Como Arlan, deveríamos resignarmo-nos e nos aprofundar com uma curiosidade saudável em nossas próprias histórias e dores – e, a partir de então, refletirmos mais sabiamente a respeito de nós e de nossa realidade.

Apesar de haver a discussão acerca de nacionalidade e traumas passados, não se trata, no livro, de chauvinismo desenfreado. O que está em pauta é um reconhecimento mais profundo e resignado dos erros (humanos, demasiado humanos) que foram cometidos – e sobre como nós, frutos de uma história, podemos consertar esses erros e nos tornamos pessoas melhores.


Livro: Passagem para Ararat
Autor: Michael J. Arlen
Nacionalidade: Armênio-americano
Edições publicadas no Brasil: Paz e Terra (1978)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Blade Runner e o futuro que é aqui

No futuro distópico imaginado por Ridley Scott, seres não completamente humanos precisam ser exterminados a qualquer custo. Qualquer semelhança com o Brasil contemporâneo não é mera coincidência

por MURILO CLETO



Imagine um futuro em que a cidade é um caos absoluto. Em que, de tão superlotadas, é impossível caminhar pelas vielas sem esbarrar em alguém que não se faz ideia quem. Um futuro em que a imaginação das pessoas é completamente colonizada pelos outdoors, que são tantos a ponto de precisarem dos prédios pra que caibam na paisagem. 

Imagine um futuro em que o desenvolvimento tecnológico sobrepôs-se ao próprio homem, que agora luta pra minimizar os seus efeitos colaterais. Imagine que neste futuro há seres idênticos aos humanos, mas que deram errado e que precisam ser exterminados.

Criados para executar tarefas árduas ou para servir como escravos ou soldados, os replicantes suportam a dor e desconhecem o medo. Alguns recebem até implantes de memória, que simulam experiências e estimulam sensações humanas, o que torna cada vez mais difícil a tarefa de distingui-los dos seres humanos verdadeiros. 

Este é o futuro que, em 1982, Ridley Scott projetou para 2019 em Blade Runner. 3 anos antes, o Brasil contemporâneo caminha a passos largos rumo à realização de uma distopia que soa profética diante do cenário: ao todo, 50 mil pessoas são assassinadas por ano no país. Mas, assim como na ficção, nem todas têm o mesmo valor.

Em Blade Runner, a execução de replicantes tem um nome próprio: remoção. É o que distingue a sua morte das demais, as que têm valor. À luz do dia e sob o olhar inabalável das pessoas que circulam, os replicantes são removidos como mais uma das obrigações do cotidiano. No Brasil que não é ficção, também há um eufemismo que caracteriza a eliminação daqueles que, como os replicantes, têm a existência proibida na Terra: justiçamento.

O Brasil é o país que mais pratica justiçamentos no mundo. José de Souza Martins, autor de Linchamentos: a justiça popular no Brasil, estima que um milhão de brasileiros participaram de linchamentos num período de 60 anos. Casos como o de Cleidenilson Pereira Silva, espancado até a morte na última segunda-feira, no Maranhão, estão longe de ser exceção. Negro, pobre e sem passagens pela polícia, Cleidenilson foi removido como dita a tendência nestes casos: elimina-se quem já é considerado, de antemão, exterminável.

E essa não é uma suposição aleatória que parte da internet entende como "vitimismo". É conclusão da dissertação de Mestrado de Ariadne Lima Natal, que estudou particularmente os casos de linchamento entre 1980 e 2009 na região metropolitana de São Paulo. Não é a modalidade de crime que estimula o justiçamento, mas a condição de quem o pratica. É por isso quase não se vêem justiçamentos com brancos de classe média, não importa as atrocidades que tenham cometido.

Há boas explicações pra que a morte de Cleidenilson tenha ocorrido como nas caçadas eletrizantes do agente Deckard na obra de Scott: 77% dos jovens assassinados no Brasil são negros. Graças a esse índice, aliás, a expectativa de vida de um negro ao nascer no país é 1,7 anos menor do que a de um branco. Um jovem negro tem 3,7 mais chances de ser assassinado. É este o cenário que ajuda a converter o assassinato de Cleidenilson, que não é considerado tão humano quanto os outros, numa remoção.

No auge do choque de civilizações, o filósofo e linguista Tzvetan Todorov cravou que "o medo dos bárbaros é o que ameaça converter-nos em bárbaros". E, de alguma forma, é ele, o medo, que serve não apenas de impulso, mas de álibi pros justiçamentos modernos. Convertido em insegurança, o medo é uma máquina de matar. Só na primeira metade de 2014, foram registrados 50 casos de linchamentos no Brasil. A lógica, anunciada pelos comentaristas que vibram com o feito, é simples: já que o Estado não cumpre o seu papel, cabe ao povo que o faça. Diante da histórica capa em que comparava o linchamento de Cleidenilson ao açoite no Brasil escravista, 71% dos comentários na página do jornal Extra foram francamente favoráveis à atitude dos justiceiros.

Sem quaisquer restrições de horário e conteúdo, os programas policialescos brasileiros multiplicam a noção de um Estado ausente e naturalizam a caçada dos replicantes da vida real: seres não tão humanos quanto os outros que podem ser exterminados com transmissão ao vivo durante o jantar. Há pouco mais de um mês, as imagens de um repórter que flagrou o fim de uma perseguição policial em Sergipe rodaram o mundo num espetáculo tragicômico sintomático: "16 anos os dois. Aqui tem mais outro. Vamos saber mais dele aqui também. Você tem quantos anos?", perguntou a um menino com o rosto virado pro asfalto. Como ele não respondeu, insistiu cutucando as suas costas com o dedo. Novamente o silêncio, só interrompido pelas risadas do jornalista, que voltou a se comunicar com o estúdio: "Esse aqui parece que tá ferido. Esse aqui, Bareta, por incrível que pareça fui entrevistar um cara que já tá morto. Tá aqui, esse morreu. Tá aqui, morreu aqui agora. A gente não tem ainda a documentação dele pra saber se é menor ou maior". Quando reassume, o apresentador Bareta sentencia: "Eu sou a favor de um paredão. E aquela justiça de prrrrrrrrrrrrrrrrrr. Pá Pá Pá. Caiu tudo. Paga a bala, viu. Enterra os bichinhos lá. Até logo".

No último dia 23, Band e Record transmitiram ao vivo a tentativa de execução de dois suspeitos que fugiam de moto e perderam o equilíbrio, caindo numa calçada qualquer de São Paulo. O policial não teve dúvidas: atirou à queima-roupa nos dois, que só não morreram na hora por um milagre. Antes de justificar a ação oficial, o apresentador Marcelo Rezende criticava o prefeito Fernando Haddad por multar os carros da PM por excesso de velocidade. Afinal, o peso dessas vidas não é o mesmo das outras. E, neste caso, a remoção é um mal necessário. Nas redes, a prisão do policial militar autor dos disparos gerou protestos. Uma montagem na página do deputado Jair Bolsonaro no Facebook que reproduz a cena aponta com uma flecha para os "vagabundos" caídos no chão e com outra para o "herói" que remove, denunciando a "inversão de valores" promovida pelos Direitos Humanos. Resultado: mais de 125 mil curtidas e 98 mil compartilhamentos.

Com 30 anos da mais nova experiência democrática no Brasil, a paranoia que se alimenta dos mais íntimos preconceitos e a naturalização da morte dos indesejáveis é o que se conseguiu produzir de debate em torno da segurança pública. E não é possível dizer que ninguém avisou.

Ao final da caçada em Blade Runner, o recado do replicante Roy Batty ao combalido Deckard parece ter sido escrito hoje mesmo e não somente pra ele: "Viver com medo é uma experiência e tanto, não? Isso é o que é ser um escravo".

Abraços,
Murilo

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Brasil, teu nome é violência

por LUIS FELIPE MACHADO DE GENARO



O Brasil foi e permanece um país violento. Muitos não admitem, mas este problema é mais velho que se imagina e mais enraizado que se almeja.

“Violento” não apenas no sentido empregado e incitado por programas policialescos, sedentos por sangue negro e marginal, ou como pregam diariamente pastores e deputados fundamentalistas, nas igrejas e no Palácio das Bancadas, respectivamente.

Pelo império do senso comum, sustentado por uma imprensa “social e moralmente irresponsável”, como já acusava Darcy Ribeiro décadas atrás, nasce o temor. O medo transforma, move e consome de maneiras inúmeras. Hoje, vivemos em sociedades do medo. Temerosos, não agimos racionalmente. É aí que tudo começa a se esgarçar. 

Suspeito, Cleidenilson Pereira da Silva, descalço, careca, pouca roupa, negro da periferia, foi linchado até a morte por moradores de um bairro de São Luís, no Maranhão. As cenas são fortes, mas merecem ser vistas. 

Aqueles que conhecem Jean-Baptiste Debret e suas pinceladas sobre o cotidiano de um país em formação, como o escravo no tronco sendo açoitado pelo feitor, não se assustariam, no entanto, com a fotografia tirada de Cleidenilson já morto, amarrado e ensanguentado. O periódico Extra a publicou em manchete histórica: “do tronco ao poste”. Com isso, poderíamos evocar aqui discussões diversas versando direitos humanos e racismo, segurança pública e desigualdade social. Não o faremos. 



A violência, aquela velha parteira, imersa na estrutura dos séculos, das mentalidades e práticas, vem a ser o epicentro de uma discussão ainda por se fazer; uma urgência sobre um passado que insiste em não passar.

Que fique bem claro que o que está em jogo não é a defesa dos atos – praticados ou não! – por Cleidenilson. Afinal, a polícia civil ainda investiga o que de fato ocorreu. 

O que mais intriga, ou assusta, é o linchamento e a “justiça” feita com as próprias mãos. Um acontecimento que de tão colonial, chega a entristecer. Indago se seria um problema apenas de segurança pública. Difícil. Muitos outros linchamentos ocorreram nos últimos meses e suas vítimas não são nada mais, nada menos, que reflexos de Cleidenilson. 

O que poucos compreendem é que quando algo assim acontece, um Brasil de muitas permanências e poucas rupturas emerge. Um Brasil marcado pela opressão violenta que se dilui no seio da própria divisão de classes, fruto de uma colonização brutal, quatro séculos de escravidão, doutrinações, inflexível estratificação social e tentativas de conciliação e apaziguamento de conflitos pelas classes dirigentes – principalmente as atuais. 



Os atos praticados contra Cleidenilson são “compreensíveis” ao olharmos de cima a formação das classes subalternas do país. O feitor, com o chicote na mão, também era “corpo sem alma”, “mercadoria com dentes”, negro e explorado. Os que lincharam Cleidenilson não eram, senão, gente pobre, atemorizada, que agoniza em um horizonte sem expectativas, imersa no senso comum midiático, sentindo-se enfim, desprotegida. Cleidenilson, bom, era marginal. Estava à margem de um sistema político e econômico que o empurrava e comprimia. 

Por essas e outras, a violência, hoje, carrega consigo conotações negativas – quando deveria ser relativizada e vista por prismas muitas vezes ignorados. 

Se as estruturas foram erigidas na base da violência, do genocídio e da exploração, apenas uma outra violência, um outro tipo de violência, desencadearia a sua demolição. Escrevi sobre isso em meu último artigo neste Desafinado, “Entre a derrocada e a esperança”. 

Da maneira como está, as classes subalternas permanecerão conspirando, maldizendo, humilhando, maltratando, linchando e aniquilando a si próprios. Situação paradoxal e microfísica, como certa vez mostrou Foucault, que poucos parecem compreender.

A cada marginal amarrado, um eterno retorno. Reflexo de uma base social oprimida por forças externas, que na mesma esteira, se auto oprime diariamente. 

Como tudo em nossos dias, o paradigma da violência está em crise. Dela brotam apenas conotações negativas. Não no esqueçamos que em um passado não muito distante ele moveu transformações, mudanças de regime e sistemas, e fomentou como nunca o conflito social – ou, se preferirmos, a velha luta de classes. Afinal, não há lorota mais mal contada que a tal pax social repetida por sucessivos governos e autoridades. 

Não há paz. Nunca houve. 

Cleidenilson Pereira da Silva, linchado; Eduardo de Jesus Ferreira, assassinado com um balaço na cabeça; Amarildo Dias de Souza, torturado e desaparecido; Claudia Silva Ferreira, arrastada por um camburão da PM; provas vivas, hoje mortas, de uma sociedade violenta em seu âmago, que faz do extermínio do oprimido uma constante.

Sobre a mancha da escravidão e suas consequências, Darcy Ribeiro, em seu Povo Brasileiro, refletiu:

"Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, através de séculos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne daqueles pretos e índios suplicados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os suplicou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos".

Enquanto a plebe rude na cidade morre, há outros, mais acima, pilastras e fomentadores da violência assistida, sistêmica e histórica. Os coronéis de outrora, hoje, senhores de colarinho branco. Se futuros Cleidenilsons e seus linchadores não se conscientizarem dos verdadeiros inimigos, não haverá mudança, ruptura radical ou qualquer sinal de transformação. Eles continuarão – nós continuaremos! – a nos autodestruir. 

Talvez seja este o tal projeto inicial. E só há uma maneira de acabar com ele.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

OXI!

por SANDRO CHAVES ROSSI



O capital interfere na democracia. Isso não é uma opinião, mas sim uma realidade. Realidade que é discutida há muito tempo e que, por mais que pareça obsoleta nos dias de hoje, ainda é bastante pertinente. Nos últimos dias, vimos a Grécia dar um basta nas medidas de austeridades impostas pela Troika, medidas que aumentaram ainda mais a dívida pública grega e colocaram inúmeros gregos em condição de miséria. 

Há alguns anos atrás, a Grécia começou a sofrer com déficits no fundo de pensão e aposentadoria: o número de nascimentos diminuiu e a expectativa de vida aumentou, ou seja, poucas pessoas para contribuir e muitas para receber. Ainda hoje esse é um problema que assombra vários países da Europa. O que intensificou o problema grego foi o fato de que, até o ano passado, a Grécia passou por sucessivos governos neoliberais que fizeram inúmeras políticas de privatizações, o Estado diminuiu o valor arrecadado e a dívida continuou a crescer cada vez mais. Os empréstimos feitos eram frequentes, alimentavam o mercado e não as pessoas. 

Quando as campanhas para a última eleição começaram, a Europa e o mundo se atentaram à liderança do Syriza nas pesquisas, um partido considerado por muitos de extrema esquerda. O destaque do Syriza é um reflexo da insatisfação da sociedade sobre uma democracia obsoleta, que deixa a população a mercê do mercado financeiro. Vale lembrar que a ascensão dos partidos de esquerda na Europa é muito evidente, principalmente na Espanha, onde o Podemos mobilizou a população contra as medidas de austeridade do primeiro ministro Mariano Rajoy.



"Acreditamos saber que existe uma saída, mas não sabemos onde está. Não havendo ninguém do lado de fora que nos possa indicá-la, devemos procurá-la por nós mesmos. O que o labirinto ensina não é onde está a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar algum."
- Norberto Bobbio

O que todos temiam era que o Syriza desse um "calote" na dívida que a Grécia tinha com os bancos. Foi o que aconteceu. Assim que foi eleito, Alex Tsipras, do Syriza, fez uma reunião para analisar com mais cautela a dívida grega. Diversas irregularidades foram achadas e a Troika e o FMI ficaram cada vez mais atentos a qualquer manobra feita por Alexis Tsipras e seu ministro das finanças, o economista Yanis Varoufakis.

Diversas reuniões foram feitas entre o governo grego e os mais diversos representantes da União Europeia, liderados pela primeira ministra alemã Ângela Merkel. Ambos os lados foram irredutíveis nas negociações: a Troika queria mais austeridade e a Grécia queria o contrário. Alexis Tsipras não titubeou e convocou um plebiscito popular para decidir se a Grécia devia ou não continuar pagando a interminável dívida à troika.

O período entre a convocação do plebiscito e a votação foi de aproximadamente uma semana, o que causou um fervor nos mercados financeiros e principalmente na Europa. A pergunta feita nas urnas era: a Grécia deve continuar com as medidas de austeridade? Tsipras foi claro ao dizer para a população que caso o "não" (oxi) não vencesse, a Grécia se afundaria cada vez mais na crise.



As principais lideranças da União Europeia e a mídia fizeram um terrorismo exacerbado em cima do plebiscito e deram previsões catastróficas sobre o futuro grego caso o "sim" (nae) não vencesse. Destaque para o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, que disse que o governo Syriza era irresponsável e que, antes do partido assumir o governo, a Grécia estava perto de sair da crise, o que não é verdade, como os próprios números já mostravam.

Alguns economistas de renome saíram em defesa da Grécia. Entre eles podemos destacar Paul Krugman, que venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008 e Thomas Piketty, autor do livro "O Capital do Século XXI". Ambos saíram em defesa da democracia e foram muito categóricos ao justificar suas escolhas.

Após a vitória do "não", Paul Krugman disse:

“Acabamos de ver a Grécia enfrentar uma campanha verdadeiramente vil de bullying e intimidação, uma tentativa de assustar o público grego, e não só para que aceitasse as exigências dos credores, mas também para que se livrasse do seu governo”

“Foi um momento vergonhoso na história da Europa moderna, e teria aberto um precedente realmente tenebroso se tivesse sido bem sucedido.”

“A verdade é que os auto-denominados tecnocratas europeus são como os médicos medievais que insistem em sangrar os seus paciente – e quando o seu tratamento degrada a saúde dos doentes, exigem ainda mais sangramento.”

"Em qualquer caso, a democracia é mais importante do que qualquer acordo cambial."

Krugman ainda reforça as opções que a Grécia tem depois do plebiscito, como a criação de uma moeda paralela ao Euro, caso os gregos não possam se manter na zona euro, é porque essa moeda comum não oferece qualquer alívio aos países em dificuldades.

Thomas Piketty fez uma análise mais histórica da situação grega e lembrou que a Alemanha nunca pagou uma dívida:

"A Grécia devia usar a mesma solução da Alemanha que não pagou sua dívida externa nem depois da Primeira nem depois da Segunda Guerra Mundial. Ou seja, o país deve fazer uma reestruturação, perdão, inflação e aumento de impostos e tributos. Com isso, a dívida da maior economia da zona do Euro conseguiu sair de 200% do PIB para 20% nos dez anos que seguiram à Segunda Guerra Mundial"

Talvez o que seja mais importante ressaltar disso tudo é que os calotes que os governos dão em dívidas exorbitantes não é nenhuma atitude absurda. O capital não deve ser posto à frente do bem-estar social. A democracia se consolida com mobilização popular, que nos últimos anos se rebelou contra um sistema financeiro altamente destrutivo, que tira pouco de muitos para dar muito para poucos. É bom frisar que a Grécia não é o primeiro país a dar calote no mercado financeiro e nem vai ser o último. Ainda bem.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Entre a legislação simbólica, o contrato insuficiente e a surdez coletiva

por MURILO CLETO

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom (Agência Brasil)


Neste fim de semana, assinei dois artigos sobre a manobra de Eduardo Cunha que aprovou a redução da maioridade penal no Congresso de 18 para 16 anos durante a madrugada de quinta-feira, 2 de julho. O primeiro deles, no Carta Maior, assinala pra uma tendência anunciada de hipertrofia das regras mediante a crescente sensação de insuficiência do contrato social como efeito colateral da vida em condomínios, a partir do arcabouço psicossocial oferecido por Christian Dunker em Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma.

O segundo, na Revista Fórum, recorre ao jurista alemão Harald Kindermann pra explicar como essa negação ao espaço público e a ausência de identificação entre o cidadão médio e o Estado provoca a proliferação de leis ausentes de efeito instrumental, mas carregadas de poder simbólico, que minimizam essa crise de reconhecimento. Grosso modo, é o que explica a vibração diante do pretenso pressuposto democrático que sustenta a redução, o maciço apoio popular - algo em torno de 87%, segundo o Datafolha.

Descende deste cenário a ascensão meteórica de Cunha diante de uma população que mal o reconhecia até muito pouco tempo atrás nas ruas. Hoje, o presidente da Câmara é o enfermeiro aplicador de morfina num Brasil que sofre com o problema da violência, da desonestidade jornalística e da distância em relação ao Estado.

Tudo isso serve pra dizer que o que mais me preocupa é menos Eduardo Cunha do que o aparato que o elegeu e hoje sustenta suas manobras, que põem em xeque o Estado de direito e nem por isso são dignas de repúdio por parte daqueles que comungam das mesmas conclusões que ele. Aliás, a cegueira antipetista que contaminou o país tem sido capaz de blindá-lo mesmo das recentes acusações na Operação Lava-Jato, por exemplo, a mesma que serviu pra carimbar o governo com o estigma da corrupção. Quer dizer, a mesma delação premiada que confirmou a "roubalheira do PT" trata-se de perseguição política ao corajoso parlamentar que desafiou o governo. 

A confiança de Cunha é tanta que, diante do anúncio de que a Ordem dos Advogados do Brasil recorreria ao STF pra barrar o remendo que aprovou parte da PEC 171/93, chegou a dizer que a instituição não tem credibilidade nenhuma. E muito embora 74% da população se anuncie contrária ao financiamento empresarial de campanha, não causou nem cócegas a recente divulgação dos valores e patrocinadores de sua empreitada eleitoral no ano passado: quase 7 milhões de reais declarados, vindos de empresas que são frequentemente beneficiadas pelas suas canetadas no Congresso.

Ontem, aqui mesmo no Desafinado, falei sobre a surdez coletiva que surgiu como sequela do processo de horizontalização da comunicação verificado através das redes sociais. E, ao que tudo indica, não adianta mais insistir nas explicações técnicas que contestem Cunha. Me parece, afinal, que já passou da hora de entender o que de fato há por trás dessa crise generalizada que vive a democracia brasileira. O ovo da serpente já chocou.

Abraços, 
Murilo

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Quem diz o quê pra quem

Como as frustrações do escritor na era das redes sociais desnudam a encruzilhada em que vive a comunicação na contemporaneidade

por MURILO CLETO
Recebi há poucos dias a ligação de um amigo que sugeria um tema pro blog e me repreendia pelo artigo escrito sobre a questão da "ideologia de gênero" no Plano Municipal de Educação em Itararé. Provavelmente ele tinha razão: pouquíssima gente deve ter entendido o conceito de Marx sobre ideologia e, afinal, por que ele tem sido tão mal utilizado nos últimos tempos. Parte dos comentários no texto confirma essa hipótese: "Você até escreve bem, ficou bunitinho seu texto, acredito que até vai enganar os verdadeiros idiotas úteis. Não a essa IDEOLOGIA MALDITA e PRONTO", me escreveu um leitor carinhoso.

Refazendo o lamento, seria possível dizer que pouquíssima gente que precisava ler o artigo deve ter entendido o conceito de Marx sobre ideologia. E a novela dos planos municipais de Educação em todo país ainda deve oferecer muitos capítulos pra alguma análise mais apurada. O fato é que a conversa me lembrou outro comentário sobre o blog e que me chamou a atenção. Alguém, que não me recordo quem, sentenciou: "vocês escrevem pra público ganho". Se a intenção de quem escreve é, sei lá, mudar o mundo, a fala serve como um verdadeiro balde de água fria.

Mas, afinal, o que provoca essa distância abismal entre o que se escreve e o que se entende disso? E, ainda, o que explica a sensação, crescente e trágica entre escritores, de se, cada vez mais, falar para paredes?

Já em 1507, o dramaturgo espanhol Fernando de Rojas perguntava-se, inquieto, por que sua obra era apropriada de formas tão múltiplas e provocava tanta discórdia entre seus leitores. O autor de La Celestina sustentava haver três categorias deles: os que utilizavam as obras meramente como entretenimento e selecionavam trechos que tinham a ver com a jornada percorrida pelo personagem principal do conto; os que interessavam-se pelas obras para o seu uso prático, como a memorização de provérbios e chistes; e, finalmente, os que extraíam da obra a sua essência para dela tirar algum proveito e poder empregá-la adequadamente. Segundo o escritor, somente os terceiros estavam corretos.

5 séculos depois, há boas explicações médicas pra isso: além de simplesmente receber informação, na acepção grega da palavra, há um caminho de elaboração muito mais complexo do que se anuncia. Em brilhante artigo assinado na Revista Piauí de março de 2010, Atul Gawande discute esse processo cognitivo pra tratar da coceira, encarada durante gerações como uma resposta automática do corpo diante de qualquer incômodo nele provocado. De acordo com o autor, a existência de "membros fantasmas" corrobora a hipótese de que a maioria das fibras que chegam ao córtex visual primário do cérebro não vem da retina, mas da memória - cerca de 90% da nossa percepção, segundo o neuropsicólogo britânico Richard Gregory. É por isso que dor e coceira em membros fantasmas só podem ser tratados mediante intensa fisioterapia com muito apelo visual, pra que o cérebro se acostume com a ideia de que o membro não existe mais.

E o que isso tem a ver com a leitura? Mais do que recebe, algo o interlocutor constrói a partir do que lê. E essa elaboração está diretamente relacionada com uma conjunção de esforços entre memória, sentimentos coletivos e percepções individuais.

Mas Rojas não foi o primeiro nem o último autor a lamentar as nuances interpretativas que o seu texto provocou. Hoje ele seria só mais um dentre tantos escritores frustrados com os rumos da sua obra, especialmente nos tempos da hiperinformação.

No limiar do século 21, a popularização da internet provocou uma verdadeira revolução em comunicação. Do noticiário impresso ou televisivo, a velha noção de um polo emissor e outro receptor ruiu diante de um processo que primeiro multiplicou como nunca a criação de conteúdo e que também induziu a sua horizontalização.

Não é por acaso que o Facebook tenha se tornado a maior rede social do mundo: entendeu como ninguém essa guinada e passou a explorar a comunicação a partir dos interesses de quem constitui a rede, os próprios usuários. Sobrevive-se a ele porque o excesso de informação pode ser filtrado mediante a seleção da própria rede, que direciona publicações de maior afinidade ao receptor, o que multiplica exponencialmente as chances de interação. O Orkut, primeira opção dos brasileiros em 2004, não resistiu e virou verbo pra classificar a popularização do império de Zuckerberg: "estão orkutizando o Facebook", é o que diziam durante a migração.

É por isso também que a internet tornou-se um grande laboratório virtual. Em troca do acesso livre e irrestrito a todo conteúdo, a rede sobrevive a partir da coleta de dados, experimentos e de anúncios cada vez mais seletos de acordo com o mapeamento do que se faz online. No ano passado, a chefe operacional do Facebook e executiva nº 2 da rede, Sheryl Sandberg, chegou a pedir desculpas por uma pesquisa realizada em 2012 que filtrou e manipulou, sem qualquer aviso prévio, o feed de notícias dos usuários para observar as suas emoções diante do que lhes era exposto.

Mas o que tinha tudo pra ser espaço amplo e irrestrito da democracia já tem dado sinais de saturação. E não é mero acaso que a internet tenha virado palco pra manifestações de ódio de toda ordem, da direita à esquerda, de cima pra baixo.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o sociólogo Manuel Castells sustentou que "a única coisa que a internet faz é expressar abertamente o que é a sociedade em sua diversidade. Trata-se de um espelho". Muito embora seu ponto de argumentação esteja ancorado na ideia de que o Brasil sempre foi violento, apesar do mito da cordialidade, Castells ignora o potencial aquartelador em que se construíram as relações online no Ocidente e que estimularam não a polarização do debate político, mas a sua negação.

Escrever pra quem está do lado de lá no século XXI é se jogar numa cova de leões, correndo o risco de ser desautorizado de antemão num território que não é o seu. Escrever pra quem está do lado de cá soa quase como inútil, afinal o que se muda no conjunto com a mera confirmação de pressupostos particulares? Enquanto ouvia a justa reclamação do amigo que me questionava sobre a erudição de um texto que precisava de um apelo mais popular, lembrava-me da sua escrita e da sensação de chute no balde que acompanhou a decisão de recorrer a Marx pra explicar o que ninguém está disposto a entender.

Os últimos debates na internet sobre a redução da maioridade e a questão do gênero nos planos municipais de Educação desnudaram como nunca esse isolamento. Já se disse tudo o que se precisava dizer pra que a rejeição à PEC 171/93 não fosse encarada como defesa de jovem delinquente, assim como tudo sobre gênero pra que não se pense tratar-se de conversão transexual nas escolas. Mas não funciona: a ideia bate no muro do outro e volta. Mais do que não se entende, não se quer entender e há um gozo nesse bloqueio, pois mesmo o repúdio nunca foi tão publicizado.

Pode ser por isso que parte da esquerda tenha apostado tanto ultimamente em recursos como a apropriação de Jesus Cristo como vanguardista do progressismo, uma espécie de carona que pode ajudar no que hoje parece quase impossível: ser ouvido no meio deste turbilhão de gente falando.

O historiador Roger Chartier dizia que a leitura é o ato de "caçar em propriedade alheia". E, de alguma forma, ele nos remete a Walter Benjamin, que já na primeira metade do século XX apontava a capacidade de retenção do choque da vida moderna, da velocidade caótica que derruba a auréola do poeta em Baudelaire, como fator determinante pro empobrecimento da experiência e da imaginação, o que nos impede de visitar, desarmados, o outro na sua propriedade.

Na esteira da trágica morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo e do orgulho daqueles que alegavam desconhecê-lo, Matheus Pichonelli trouxe essa reflexão também como autocrítica. Até que ponto vale a pena o conforto da vida no interior destas muralhas? De tão superiores, perdemos o contato com o chão. E, de repente, parece que a nossa única relação com a cidade se dá através do taxista que nos leva de uma bolha pra outra. Daí o espanto, que já virou corriqueiro, com uma ou outra declaração digna de asco pra ser objeto de crônica horas depois.

Orgulhamo-nos também de não ler os comentários nos nossos próprios textos porque decerto somos bons demais pra isso. Mas, por algum motivo, dessa vez eu fui conferir o que diziam os leitores no texto do Matheus. 

"E a 'CUT', é do PT?", é o que o primeiro deles queria saber.


Abraços, 
Murilo