segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Que fase

A greve de servidores municipais e as lideranças políticas do presente em Itararé

por MURILO CLETO

Foto: Romeu Neto / TV Tem


Poucos eventos demonstram o grau de desgraçamento político em que Itararé se encontra do que os condicionantes da greve de funcionários municipais que se desenrola desde a última quinta-feira. Não sou absolutamente ninguém pra dizer de que lado eles devem ficar, mas também não poderia deixar de comentar o que sei a respeito do que está acontecendo.

Primeiro, a questão do mérito. O reajuste salarial oferecido pela prefeitura deveria ser de 10,67%. O número não é aleatório. É o que se precisa pra manter pelo menos igual o salário do ano passado. Na prática, um reajuste de 2% significa arrocho. E as consequências dele seriam trágicas não apenas pras famílias que dependem destes vencimentos, mas pra economia local. São quase 2 mil funcionários. É só fazer as contas do impacto negativo. 

Apesar de comum para os professores da rede estadual, como destacado pela prefeita, a proposta de parcelamento anual do reajuste é risível porque joga nas costas do próximo mandato um problema que não foi ele quem criou – algo com que a atual gestão sofre até hoje e serviu de explicação plausível para os principais problemas de caixa vividos pelo executivo. Além do mais, a economia não dá quaisquer sinais claros de que a inflação vá diminuir significativamente. E isso deve virar uma bola de neve.

Também pesa contra Cristina uma série de promessas não cumpridas quanto à redução de gastos com gratificações e horas extras. Ao contrário do anunciado, as gratificações não incorporadas permanecem intocadas. E não é segredo pra ninguém que, enquanto alguns comissionados carregam diversos setores nas costas, outros seguem onerando os cofres públicos sem nenhum retorno sob a forma de serviços bem prestados à população. Some-se a isso uma porção de contratações sem projeção de impacto na folha. É bem verdade que o gasto da gestão Cristina com cargos de confiança nem se compara ao de gestões anteriores, mas, quando sequer o mínimo é garantido, deveria estar na hora de rever até que ponto vale somente esta analogia pra justificar a letargia. 

Isso sem contar a eterna inabilidade de comunicação do executivo com população e trabalhadores, que serve não apenas pra que muita coisa permaneça não esclarecida, mas pra que muita coisa não se resolva. Depois da reunião com o sindicato, a prefeitura lançou uma “nota de esclarecimento” tenebrosa no site oficial, toda mal escrita – a ponto de ser incompreensível – e que não cita, uma vez sequer, a palavra “greve”. Pra falar a verdade, é graças à cobertura da TV Tem que se pode saber o mínimo acerca das posições antagônicas neste impasse.

Se por um lado é verdade que há muitos professores que não aderiram à greve na rede estadual e agora cruzaram os braços, é verdade, por outro, que muitos dos que apoiaram quando foi contra Alckmin agora se opõem quando é contra Cristina. As condições, evidentemente, não são as mesmas. Mas a base das reivindicações continua sendo a mesma, que é o reajuste. 

Inclusive lamento muito por aqueles que jogam com o argumento de que a greve atrapalha a população, na medida em que os serviços são interrompidos. Greve é pra atrapalhar, sim. Como que não? Se não atrapalhar, não exerce efeito nenhum de pressão. Se houver excessos, cabe à justiça decidir. Quem é ligado ao Partido dos Trabalhadores, cuja origem remonta às bases sindicais, deveria saber muito bem disso. 

Mas essa história tem um detalhe importante demais pra ficar de fora. Hoje quem convoca, articula e lidera a greve é, evidentemente, o sindicato dos servidores municipais, presidido por Willer Costa Mendes, vereador há 7 anos. Aquele mesmo que mentiu quanto à inconstitucionalidade do reajuste no ano passado, que disse que a prefeita “cacareja” no programa de rádio e que, até agora, na posição de legislador, não apresentou uma solução sequer pros graves problemas de arrecadação que o município vive faz muito tempo. Uma postura que não diverge muito dos demais. Porque tem uma questão matemática aqui: Itararé arrecada cada vez menos e precisa gastar cada vez mais. E quem resolve isso, junto ao Paço, é a Câmara.

Rigorosamente todas as alternativas propostas pelo executivo neste sentido foram destroçadas pela oposição. Chegaram a “confundir” ITBI com IPTU, quem lembra? Fraca demais na Câmara, a prefeitura abandonou todos os projetos que poderiam corrigir os privilégios fiscais ultrajantes que beneficiam os mais ricos. Além do mais, um pouco de atenção quanto à realidade nacional não faria mal a ninguém. Há municípios e estados que estão parcelando não apenas reajustes, mas salários integralmente.

Essa fragilidade pode ser percebida, por exemplo, pela crônica do absurdo protagonizada pelo legislativo na última quarta-feira, quando aprovou por conta própria o reajuste de 10,67%. A medida é ilegal e demagógica, afinal não são os vereadores que propõem o reajuste. Será que é demais, pra mim, como cidadão, esperar que a Câmara faça o seu trabalho e lute pra resolver o problema de arrecadação que vive o município, como demandam suas atribuições, em vez de fazer essas barbeiragens pra subir no conceito da população em ano eleitoral? Aí eles estão lá, todos pomposos com microfone na mão. Produtividade, 0. Falação, 10.

Neste momento, seria fundamental uma autocrítica de executivo, legislativo e sindicato quanto ao plano de carreira, que ninguém – e eu vou repetir pra ficar bem claro: ninguém – se coçou pra fazer, por razões muito claras: produzir plano de carreira é coisa pro futuro e que mexe com privilégios imediatos. Já pensou acabar com as gratificações, hoje o maior recurso de costura de alianças no interior da administração? Ninguém quer isso. Demanda tempo, planejamento e traz custos altíssimos de capital político.

Nenhum destes apontamentos, evidentemente, tem o objetivo de desqualificar a greve. Muito pelo contrário. A greve é legítima e vai continuar sendo até que a justiça diga o contrário – o que não deve acontecer. O que eu quero mostrar aqui é que o buraco é muito mais embaixo e que as soluções imediatistas interessam muito mais às velhas e desgastadas lideranças do que ao município. Aliás, não é chamando a prefeita de “megera” e quem discorda da greve de “louca”, mandando “trabalhar pra parar de encher o saco”, que os interesses da categoria serão garantidos. Neste momento, a greve serve de palanque pro que tem de pior na política local. 

Lamentavelmente, o que mais vai aparecer por aqui este ano são os mágicos da ação, que dizem exatamente o que fazer, mas esquecem, por acaso, de dizer como. Eu costumo chamá-los de políticos da somatória – aqueles que só mandam aumentar os gastos da máquina pública, sem dizer de onde tirar. Em 2012 foi assim e em 2016 vai ser pior.

Mas que outra opção têm os funcionários? Essa pergunta precisa ser feita, inclusive por aqueles que se opõem à paralisação. Até porque a greve vai passar e o vácuo vai permanecer.

E no meio desse fogo cruzado quem fica? Ora, o servidor municipal e quem depende do seu trabalho. Eu não sei se alguém tem uma luz aí, mas, como diria Milton Leite, que neste momento parece o narrador oficial da política itarareense: que fase.

Abraços, 
Murilo 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A epopeia de um tri

por MURILO CLETO

Foto: Agência Pública


O relógio marcava 4 da tarde quando olhei pro céu e vi que o tempo ia fechar. Finais me deixam muito nervoso e, até aquela hora, eu ainda não havia decidido onde ver o jogo.

Como reza a cartilha, botei a mochila nas costas, peguei a bicicleta e parti em direção à faculdade mesmo assim, contando com mais uma chuva de verão, daquelas que estouram durante as aulas e depois somem como se nada tivesse acontecido.

Meu plano era perfeito. Chegaria como quem não quer nada na turma da segunda aula perguntando se eles topavam começar a prova um pouquinho antes. Assim, quem sabe, eu poderia não perder tanto do primeiro tempo no Allianz Parque. A meu favor, ainda contou um barulho ensurdecedor que vinha do auditório e que provocou uma mudança de sala. Acabamos com outra turma do curso, que já faria a sua prova ali com outro professor. Se batesse o desespero, pensei, era só sair correndo sem a consciência pesada de que eles não teriam pra quem entregar o papel.

Seria um plano perfeito se eu não tivesse que buscar alguns alunos perdidos pelos corredores e que, pra meu desespero, ainda não sabiam da mudança. Seria, também, se antes, no meio do caminho, eu não tivesse notado que esqueci as avaliações em casa. A maior subida de todas tinha acabado de ser superada. Mas não voltar não era exatamente uma opção naquele momento. Eu, que não sou muito de suar, já cheguei ensopado.

Horas antes, gravei, pela primeira vez, minha versão do hino do Palmeiras na guitarra. Nem lembrava mais como era, mas achei que era o momento oportuno. Era preciso transbordar aquele misto de sentimentos, com paixão, euforia, ansiedade e sei lá mais o quê nessa panela. Na primeira tentativa, estourou a corda ré. Tudo bem, tenho várias aqui, me confortei. Mas não achei nenhuma equivalente, então tive que tirar de outro instrumento. Só depois que o fiz percebi que tinha visto errado e tava achando até então que se tratava da lá. Tudo bem, era só trocar direito agora. Troquei.

E toquei, depois de ter vestido a camisa da sorte que mandamos fazer na loja da Malu pra jogar contra rivais nos gramados sintéticos da cidade. Considero-a desta forma porque, pelo menos aqui, era um massacre atrás do outro a nosso favor. Nunca responsabilidade minha, diga-se. O que vocês não sabem é que eu havia errado imperdoavelmente de cálculo e precisei encontrá-la no cesto de roupas sujas. A Renata ainda não sabe, mas passei assim mesmo pra vestir. O preço de um sovaco cheiroso, ou seja, um caminhão de energias ruins pra São Paulo, era alto demais pra quem teria João Pedro aquela noite na lateral direita.

Apesar dos imprevistos, tudo correu conforme o combinado. Caiu o mundo durante a primeira prova. E logo depois parou. Esqueci de combinar direito com São Pedro e a chuva voltou. Depois de acomodar todo mundo na nova sala, inclusive os perdidos, voltou a chover torrencialmente. Àquela altura, mesmo a gentil oferta do professor são-paulino Luis Fernando, de atendê-los pra mim, era inócua. Com o texto da semana atrasado pra revista, tive que levar o computador na mochila. E sair daquele jeito era suicídio. Pelo menos pra máquina.

Ainda era cedo quando acabei de recolher todas as avaliações. Fui conferir o tempo de novo, como se o barulho no teto de eternit não bastasse. Resolvi ir pra sala dos professores acompanhar o primeiro tempo, que já tinha começado, pelo Twitter e pelo lance a lance do Globo Esporte. Sinceramente, acompanhar uma final pelo lance a lance é algo que não desejo pra mais baixa das minhas inimigas. Além da demora nas atualizações, eles consideram um lance, por exemplo, a troca de shorts do Zé Roberto. Tempo perdido em vídeo que poderia ser destinado à rede social que é bem mais dinâmica. Lá, um arrombado resolveu compartilhar um tuíte do Milton Neves que dizia “Gol do Palmeiras!”. Demorei uma eterna fração de segundo pra perceber que era de abril.

Não tinha jeito, eu precisava ir embora. Põe num plastiquinho aí, tinha sugerido o Luis Fernando pro notebook não molhar. O único que tinha era o das provas. E ele serviu até a metade, não sem rasgar. Como um fugitivo de Prison Break, corri em direção ao bicicletário e, depois da mais longa abertura de cadeado da história da humanidade, pedalei como se não houvesse amanhã em direção à Vila Osório. Não moro mais lá, mas é mais perto e eu poderia, pelo menos, esperar um pouco até a chuva diminuir assistindo ao jogo, enfim, numa TV.

Tudo apagado. Minha mãe dorme cedo. Como não pensei nisso antes? Tudo bem, é caminho pra casa. A essa altura, meu grau e meio de miopia já nem faziam mais diferença. Nem quando achei que esses quebra-molas na rua fossem, sei lá, sapos. Era melhor guardar os óculos na bolsa do que ficar com aquela visão agoniante de para-brisa sem limpador. Depois de comemorar a travessia sem queda por um pequeno trecho no paralelepípedo, no cruzamento entre as ruas Itararé e São Pedro, um carro me lavou após passar por uma poça d’água. Senti o encharque particularmente no mamilo esquerdo.

Ofegante, cheguei em casa ainda meio atordoado. Antes de guardar a bicicleta, liguei a TV. Foi só então que me lembrei do problema no controle do receptor. Uma espécie de retardo o tem acometido há algumas semanas, mas nunca tinha precisado ligá-lo com urgência mesmo. Nova tortura. Aperto os botões e ele não obedece. Ou obedece, mas não sinaliza, e acabo apertando mais botões. Foi parar num canal de celebridades, ou algo assim, nem lembro mais.

Ensopado, ainda em pé e com a bicicleta na sala, finalmente chego ao SporTV. O primeiro tempo tinha acabado de terminar. Não preciso nem contar que, durante o intervalo, a chuva deu uma trégua.

Mas quem se importa? Ao final da cobrança de pênaltis, disparei no corredor de casa, sozinho, exatamente como há 17 anos, quando Oséas acertou aquela bola inexplicável no gol do Cruzeiro dando a Copa do Brasil pela primeira vez ao campeão do século XX. Escrevo agora do mesmo computador que sobreviveu pra contar essa história. Ao fundo, toca a trilha sonora registrada com a mesma camisa fedorenta que, dessa vez, penso seriamente em nunca mais lavar. As provas dos alunos eu já sequei. Só espero que Anna Beatriz, minha editora na revista, entenda o atraso do texto da semana. Se não entender, tudo bem. Não é todo dia que se podem vencer tantas batalhas duma só vez.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Uma geração de idiotas

por MURILO CLETO

Foto: http://www.walterbatista.com.br/2014/09/melhor-impossivel-danilo-gentili-vem-ai.html


Que as redes sociais gestaram a maior – ou pelo menos mais organizada – geração de idiotas de todos os tempos todo mundo sabe. O que se ignora, tragicamente, são as condições desta gestação. Na América, não só a do Sul, pois há muitos republicanos que também pensam assim, é crescente a sensação de que a esquerda está no poder e acabou por cooptar instituições vinculadas à produção e à difusão de saberes.

Isso ajuda a explicar tanto a paranoia, amplamente reproduzida por grupos de oposição no Brasil, como Movimento Brasil Livre, Revoltados On Line e similares, de que os maiores jornais do país são porta-vozes do governo petista, quanto a de que o marxismo dominou as universidades.


E há muita coisa de nociva nisso, sobretudo no que diz respeito à circulação destes novos saberes propostos por um pensamento que se vende como crítico, como contra o senso comum, mas que significa, na verdade, apenas uma reprodução barata de velhos clichês do pensamento conservador.

Engana-se quem pensa que a maior oposição à esquerda está na sua política econômica. Quer dizer, até pode ser. Mas não em tempos de redes sociais. Hoje, a maior ocupação da direita neocon é no que diz respeito a valores. E não é de se estranhar que partidos historicamente vinculados ao liberalismo na moralidade e na economia, como o PSDB, tenham se alinhado ao que existe de pior no cenário contemporâneo. Porque é discurso fácil, reproduz como metástase e permite identificação mais clara com o eleitorado avesso ao “desvirtuamento de valores” promovido pela “esquerda”.

“Esquerda”, entre aspas, porque ela tem sido muito mais uma imagem do que uma realidade empírica no século XXI.

Veja, onde está concentrado hoje o “pensamento crítico” desta direita aqui? Em temas fundamentalmente morais. E aonde quer chegar esse pensamento que, insisto, se vende como crítico? Onde ele estava antes de a “esquerda” chegar ao poder. Então ele é contra a descriminalização do aborto porque é “a favor da vida” – olha que bonzinho. Ele é contra as cotas porque é “a favor da igualdade perante a lei” – cita até Morgan Freeman pra falar em “consciência humana” daí. Ele defende a legitimidade da violência simbólica porque é “a favor da liberdade de expressão” – e, se precisar, sabe de cor até a 1ª emenda da constituição norte-americana.

E o que o idiota faz? Sai virando estrela se achando gênio.

Há algo de crítico nisso? Claro que não, rigorosamente nada. Mas vende que é uma beleza. Só não digam que eu não avisei.

Abraços, 
Murilo

(Texto originalmente publicado no Facebook do autor)

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Tiro de Guerra desativado em Itararé já não é mais tão indispensável

por MURILO CLETO

Foto: Prefeitura de Itararé


Há poucos dias a prefeitura de Itararé anunciou a suspensão das atividades do Tiro de Guerra, responsável aqui pela manutenção do serviço militar obrigatório no município. Suspensão porque, segundo a administração, é possível que o serviço retorne após o exercício de 2016. Na verdade a medida soa emergencial, considerando a péssima situação orçamentária pro ano que vem. 

De acordo com informações da Secretaria de Finanças, os custos da instituição giravam entre 30 e 40 mil reais por ano. Não é nada assombroso, mas é preciso avaliar que o papel dela pro município já não é mais exatamente o mesmo que de outras épocas. E não convém aqui, nesta oportunidade, discutir a legitimidade de uma educação militarizada pra jovens sem expectativa alguma de seguir carreira no exército.

Enquanto alguns insistem que a medida integra um plano comunista de desarticulação do exército para implantação da ditadura bolivariana (sim, Itararé também é Brasil), muita gente lamentou a decisão considerando a importância da instituição para a educação dos adolescentes no município. Alega-se, não sem grau algum de razão, que encontra-se no exército uma oportunidade única de instrução disciplinar numa juventude por vezes desorientada e sem muitas perspectivas pro futuro.

Nesta percepção sobre o papel do exército há, claro, uma dosagem de saudosismo. E, como todo saudosismo, carregado por uma leitura um tanto idealizada do passado. Em sua maioria, hoje quem lamenta a suspensão das atividades do TG em Itararé tem entre 40 e 50 anos. No período que corresponde à sua idade de serviço, é importante considerar que, além do exército, não havia mais opção alguma de integração educacional e disciplinar, quando o abandono dos estudos no Ensino Médio (ontem colegial) era a regra, e não a exceção.

Hoje o município de Itararé conta com entidades como a Guarda Mirim, que também reproduz parte desta lógica disciplinar de ensino, além de um Ensino Médio ampliado e programas exclusivamente voltados a jovens em situação de vulnerabilidade. Se, de alguma forma, estas opções não estão à altura da importância que a atenção sobre a idade exige, está na hora de participar mais ativamente da organização das ações educativas no município. 

Não tem segredo.

Mas, mais uma vez é preciso destacar: até agora a prefeitura não se manifestou oficial e abertamente a respeito do assunto. Foi através do jornal O Guarani que a notícia passou a circular. Nenhuma nota em imprensa e site oficiais, nem nas redes sociais geridas pela administração. Ninguém pra dizer claramente o que o município pode oferecer pra jovens na faixa etária correspondente. Aí fica muito difícil.

Abraços, 
Murilo

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Amadou Hampâté Bâ: uma sabedoria ancestral

por LUISA DE QUADROS COQUEMALA


Meu avô explicou mais tarde que, se Tidjani tivesse permanecido naquele dia à sombra da grande acácia, e se a oração de ASR (momento da tarde quando o sol anuncia seu declínio) ali houvesse surpreendido, jamais teria se tornado chefe, nem fundado seu reino neste local. Certamente, esta não é uma lógica muito cartesiana. Mas para nossos anciãos, sobretudo para os “homens de conhecimento” (silatigui para os fulas, doma para os bambaras), a lógica apoiava-se em outra visão de mundo, em que o homem se ligava de maneira sutil e viva a tudo que o cercava. Para eles, a configuração das coisas em determinados momentos-chave da existência possuía um significado preciso, que sabiam decifrar. “Esteja à escuta”, dizia-se na velha África, “tudo fala, tudo é palavra, tudo nos procura comunicar um conhecimento...


Amadou Hampâté Bâ apareceu em minha lista de autores a serem lidos por acaso, em pesquisas aleatórias. Seu livro, Amkoulelel, o menino fula, consequentemente, veio parar no meu colo de paraquedas e acabou se tornando uma agradável surpresa.

O livro consiste, basicamente, no autor contando sua história até a fase em que começa a se tornar um adulto, conseguindo seu primeiro trabalho. Hampâté Bâ, contudo, não começa contando sua história a partir de si. No início do livro, o autor conta sobre sua linhagem familiar de uma maneira muito elucidativa, explicando fatos não apenas de sua família, mas também aqueles que envolveram a história da região em que nasceu – atualmente, o Mali. 

O autor tem suas primeiras lembranças, desconexas e breves, apenas na página cinquenta e cinco, enquanto começa a ter uma consciência maior do mundo apenas na página cento e vinte. Pode soar chato ou arrastado pensar em um livro onde a personagem principal entra tão demoradamente. Contudo, esta não é a intenção de Hampâté. Em sua narrativa, ele quer justamente mostrar um tipo de tradição que está se perdendo, e é por isso que escreve sua história como se estivesse narrando oralmente – como era costume em sua juventude. Seu livro pode parecer difícil, quase denso demais, porque não tem justamente a pressa do mundo de hoje, tudo se desenrola detalhadamente, com uma calma e paciência que raramente se testemunham em nosso mundo turbulento. 

E esses fatores tornam o livro do malinês extremamente rico – não apenas porque serve-se dos mínimos detalhes, mas também porque, para tanto, mostra os costumes através de explicações históricas e culturais muito ricas. E as explicações englobam costumes à mesa, guerras civis, religião, educação, circuncisão, obediência aos pais e por aí vai. De forma que, muito mais do que uma simples autobiografia, Bâ faz com que mergulhemos num determinado tempo e época que parece tão distante e tão ricamente diferente do qual temos hoje. Ler seu livro ao mesmo tempo em que se vive num mundo globalizado, com uma cultura cada vez mais comercial, dá um aperto, um medo do que pode vir pela frente – e, além disso, uma necessidade de parar no meio de toda essa correria e respirar demoradamente, contando até dez e ter paciência, olhar ao redor.

Com uma técnica puramente mnemônica, Hampâté realiza uma narrativa única, diferente daquilo que se lê normalmente. Há, no livro, uma mistura de antropológico, social, histórico e, ainda, literário. Inclusive, às vezes, lendo o livro, esquecia que era de fato o relato sobre uma vida real e mergulhava no livro como se fosse um belo romance – provavelmente pela maneira como é contado (sem esquecer o fatos de que é um cotidiano diferente, longínquo e quase inimaginável quando comparado ao mundo de hoje). 

E em tempos como os nossos também é importante notar os relatos de Bâ sobre a educação islâmica que teve ao longo de sua infância – até entrar na “escola dos brancos”, onde esse tipo de educação não acontecia. A imagem que se passa do islã é a de um lado humano que a religião trás – apesar de toda demonização que vem sofrendo hoje, não deixa de ser uma religião como qualquer outra, com elementos bons, ruins e, claro, passíveis de distorção. E depois da chocante notícia (não tão divulgada, claro), de um ataque terrorista no Mali no último dia vinte e um, Amkoullel, o menino fula, mostra-se um livro importante não apenas para que se veja o outro lado de uma religião que tem 1,5 bilhões de fiéis, mas também para que não esqueçamos da importância cultural que tem um país como o Mali. O terrorismo não vai em direção apenas a países como a França, mas também a outros cuja maioria é muçulmana (no Mali, eles representam 90% da população). A diferença estaria, a meu ver, na quantidade de atenção que se dispende para determinados lugares do planeta.

A edição brasileira cuja edição eu li, da Palas Atena, é de ótima qualidade, com bom papel e belas fotos no fim do livro. Vale a pena procurar uma edição pela internet não apenas pela boa qualidade da edição e do texto em si, mas também pela mensagem que o livro nos deixa: devemos olhar mais para o próximo, prestar atenção em outras culturas – que também merecem ter a atenção dos olhos do mundo. E, claro, andar devagar, sabiamente, diante de um mundo tão conturbado.


Ficha Técnica

TÍTULO: Amkoullel, o menino fula
AUTOR: Amadou Hampâté Bâ
NACIOLIDADE: Malinês
EDIÇÃO: Palas Atena (2003)

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Não tem defesa

por MURILO CLETO

Foto: Wagner https://www.flickr.com/photos/wagnerphn/6134432987


No ano passado, a prefeitura de Itararé interrompeu uma sequência histórica de adiantamento da primeira parcela do 13º salário aos funcionários municipais. A medida gerou reações desproporcionais, considerando que não havia nada que obrigasse o executivo a realizar os pagamentos no mês de junho, como vinha acontecendo. Isso talvez se explique pelo fato de que boa parte do barulho foi realizado por quem sequer era funcionário, mas queria tumultuar. 

Em meio a tanta histeria, a verdadeira e legítima reclamação dos trabalhadores acabou passando despercebida: tudo bem não adiantar, mas não dá pra avisar assim, tão em cima da hora. 

Com a chegada de 2015, todo mundo já era capaz de prever que o adiantamento não viria. Mas, mais uma vez, o aviso veio em cima da hora em junho, acompanhado da promessa de que a primeira parcela do 13º seria paga em 20 de novembro. A promessa não apenas não foi cumprida como também desfeita em comunicado emitido no dia 19, só um dia antes.  Não tem desculpa. Não dessa vez.

Além disso, situação dos estagiários é similar a de funcionários todos os meses. Tão recorrente que os atrasos já não são mais nem novidade. É bem verdade que se, por um lado, o estágio não é vínculo empregatício, a remuneração é necessária inclusive, e muitas vezes, pra garantia da manutenção dos seus estudos. E o impacto dos atrasos é grave demais com as altas taxas de juros na atualidade. Mas, mais do que isso, o mesmo problema além do atraso: a comunicação, sempre urgente e improvisada.

Todo mundo sabe que a situação da prefeitura é calamitosa. Se não está nada bom pra governos federal e estaduais, pros municípios é ainda muito pior. Mas a crise também poderia ser uma oportunidade de articulação com população e quadro de funcionários, em grande medida porque já ficou bastante claro que a solução não vai vir de gabinetes fechados. Até aqui não veio. O orçamento participativo, grande promessa de campanha, é qualquer coisa menos uma realidade próxima. E ninguém sabe o porquê.

É natural que, depois de 2 anos insanos de mentiras e a atuação vergonhosa de uma oposição que nunca foi a Cristina mas a Itararé, o governo municipal evite o desgaste de um capital político que hoje sequer existe e faça anúncios negativos como este em cima da hora, acreditando talvez que o problema seja solucionado e a arrecadação aumente como por milagre pouco antes dos pagamentos. Mas agora o quadro está sério demais pra que o descaso continue persistindo. 

Descaso que, verdade seja dita, não é exclusividade dos funcionários de carreira, como muitos, sem saber, alegam. Há meses os comissionados têm recebido com atraso, frequentemente sem qualquer aviso. A ideia feita de que comissionados não são produtivos, comum no imaginário médio brasileiro, desconsidera que muitos abandonaram outras atividades pra assumir a gestão provisoriamente e precisam, portanto, tanto dos pagamentos quanto, pelo menos, da sensibilidade do gabinete.

Há muitos motivos pelos quais tantos boatos pululam acerca da gestão municipal em Itararé. Mas um deles, sem dúvida alguma, é a sua própria insistência em confirmá-los da pior forma possível: sempre em cima da hora, no improviso e sem qualquer capacidade comunicativa. Assim fica muito difícil frear outros.

Um desdobramento inequívoco disso é que as trapalhadas da administração têm servido de palanque pra charlatões de toda ordem. A maioria não tem ideia do funcionamento da máquina pública e diz apenas pra pagar. Não diz como nem por onde. O próprio legislativo, por onde passam as questões envolvendo arrecadação, majoritariamente ainda não aceitou a diplomação da prefeita em 2012 e segue firme em campanha pra 2016. E o fato de a gestão não ser capaz de reagir à altura deveria servir como ponto de inflexão. Até aqui não serviu. E não há mais quem acredite que algum dia vá servir.

Abraços, 
Murilo

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Quem tem medo de Emma Bovary?

por LUISA DE QUADROS COQUEMALA



Há alguns dias, relendo o sublime livro de Flaubert, Madame Bovary, deparei-me com um trecho já anteriormente grifado. Ei-lo: 

“Seus hábitos amorosos fizeram com que a Sra. Bovary mudasse logo suas maneiras. Seus olhares tornaram-se mais ousados, seu falar mais livre; cometeu mesmo a inconveniência de passear com o Sr. Rodolphe com um cigarro na boca, como se quisesse escarnecer do mundo; enfim, os que ainda não duvidavam não duvidaram mais quando a viram, um dia, descer da Hirondelle com o corpo apertado num colete, à moda masculina; e a sra. Bovary mãe, que após uma assustadora cena com o marido, viera refugiar-se na casa do filho, não foi a burguesa menos escandalizada. Muitas outras coisas lhe desagradaram: em primeiro lugar, Charles não seguira seus conselhos quanto à interdição dos romances; em seguida, o estilo da casa desagradava-lhe; permitiu-se fazer observações e houve atrito, sobretudo uma vez, a propósito de Félicité.”

À luz de um mês tão conturbado para as mulheres brasileiras como foi o mês de outubro, encaro este trecho. Nele, o livro já percorreu a história de Emma Bovary e de suas desilusões. A protagonista está envolvida, então, em seu primeiro caso, com Rodolphe.

Contudo, quando passo meus olhos novamente por essa beleza de texto, noto que Emma não incomoda no romance e não incomodou fora do romance apenas porque era adúltera (Flaubert, ao escrever o livro, foi julgado por atentado à moral e à religião). Se o problema se resumisse a isso, é possível que Emma encontrasse uma saída que não o seu fim trágico.

O que incomodou e incomoda em Emma Bovary é seu lado, digamos, quixotesco. A personagem não trai pelo simples desejo de trair, mas sim porque compara sua realidade com outras (livrescas, mas que não deixam de ser imagináveis). Em suma: na sua essência, ela questiona a realidade em que está imersa. Vai contra o que as burguesas e burgueses da época viam com bons olhos. 

O que incomoda em Emma Bovary não é apenas o fato de ela ter se cansado de seu marido e, então, traí-lo. Não. O que incomoda em Emma Bovary é que, como diz o narrador, ao se portar como se porta, é “como se ela quisesse escarnecer do mundo”. Eis sua maneira de confrontar uma realidade a qual, no fundo, não se adequa. Porque Emma não apenas trai o marido, Emma passa com um cigarro na boca, Emma usa colete à moda masculina, Emma enfrenta e contraria a mãe de seu marido. Emma não se cala, Emma não se reprime, Emma não se contenta em ser parte passiva de uma sociedade que é naturalmente opressora, que entra em pane quando uma mulher ameaça abalar barreiras tão duramente estabelecidas.

Como já disse, pauto-me no hoje, no meu presente (e aí estaria o porquê de Madame Bovary ser um clássico: até hoje encontramos questionamentos neste maravilhoso livro, até hoje ele dialoga conosco). Não acredito que Flaubert tinha intenção de representar uma figura feminina imersa em alguma espécie de luta social engajada. Contudo, Emma, que permanece em seu mundinho de província, escandalizou uma sociedade que não estava acostumada a ver mulheres que “saem das rédeas”. Neste pequeno trecho, encontro uma chama incandescente dentro da personagem, algo notável e sublime à sua maneira. 

E apesar dos rumos que a história toma, poderíamos dizer que Emma, assim como Dom Quixote, teve momentos em sua vida que foram verdadeiras apoteoses de felicidade – pequenos momentos que podem ter sido tão intensos como várias “mães de Charles” nunca tiveram. E depois de ter provado esse tipo de sentimento, Emma, de alguma maneira, solta suas amarras, torna-se um pouco mais livre. Não é à toa que, em um dado momento da narrativa, Rodolphe exclama: “Será possível pedir a tal tipo de mulher que se conforme?”

Emma Bovary não se conforma. Por isso, assustou a sociedade no século XIX e assustaria muito conservadores de hoje - assim como Simone de Beauvoir impressionou muitas pessoas de sua época e ainda as impressiona hoje (vide a enorme repercussão em que ela foi envolvida por ter caído na prova do ENEM). 

O fato é que ambas as figuras não alarmam porque estão erradas, não amedrontaram porque são loucas. Assustam porque, em algum momento, tomaram as rédeas de seu próprio ser e foram atrás do que queriam (mesmo sendo mulheres). É isso que assusta nossos compatriotas machistas de hoje. Mas, infelizmente, para eles, nós chegamos cada vez com mais firmeza, nós estamos cada vez maiores e mais unidas. Desde o século XIX, estamos cada vez mais dispostas a fumar o que quisermos, vestir o que quisermos. Leremos, contestaremos e, claro, seremos donas de nós mesmas. Naturalmente, os opressores entram em crise, tomam uma posição de defesa. (E aí entram as apelações, acusações e distorção de um discurso que pensam que conhecem.)

Madame Bovary é lido assiduamente até hoje porque é, no mínimo, instigante. Simone de Beauvoir é reconhecida no mundo todo e cai no ENEM, por exemplo, porque grande expoente de uma voz que as mulheres vêm criando. Está dado o recado: nós vamos lutar por nossos direitos e por nossa liberdade. Nós conhecemos nossa verdadeira força interior e nós não iremos embora. Acostumem-se. Ou, então, terão que nos engolir.