quarta-feira, 16 de julho de 2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

Winner/Loser: Que jogo é esse?

Como um paradigma sócio-cultural interfere na forma de se jogar e entender o futebol

por JANAÍNA MAYRA DE OLIVEIRA WEBER



O futebol é um esporte coletivo, regulamentado por órgão internacional, de forma que cada equipe é formada por pelo menos onze (e não um) jogadores em campo e seus respectivos reservas. E como qualquer esporte coletivo, demanda atuação em conjunto, entrosamento, cooperação, harmonia, exercício de tolerância, otimização de capacidades e habilidades especificas em função do bom desempenho do conjunto, além de proporcionar um grande exercício de alteridade ao jogador e à equipe na busca da melhor performance.

No esporte, coletivo ou não, o objetivo não é jamais destruir o adversário, pois ele é fundamental para que exista a disputa, mas sim superar o outro através do desenvolvimento das próprias habilidades e capacidades, através de exploração de técnicas e estratégias cujas quais são limitadas por um conjunto de regras que procuram assegurar a equidade na disputa.

Além da arte, manifestações corporais que envolvem disputa, também costumam evocar a catarse (uma sensação de bem estar e purificação decorrente de uma descarga emocional vivenciada ou mesmo assimilada a partir dos sentidos), em quem joga e em quem assiste. A apreciação do esporte e da atividade física como exercício é muito antiga, gregos até mesmo paravam guerras para celebrar os jogos olímpicos e basta entrar em algum ginásio, quadra ou lugar de disputa, mesmo que você não conheça os times ou o jogo que está acontecendo, depois de observar um pouco acaba escolhendo um lado para torcer ou inferir opiniões e estratégias.

No entanto, nos dias atuais podemos notar outros fenômenos sendo agregados ao esporte e a sua apreciação, dentre eles quero evidenciar a interferência nociva de um paradigma sócio cultural, o do “winner/loser” difundido pelo estilo de vida norte americano e muito bem aceito por nós brasileiros que, imersos nesse paradigma, somos impelidos a certas condutas irrefletidas que, após um pouco de analise e observação, nos mostra o quão destrutivo pode ser.

O esporte tem, além da “faculdade catártica”, um potencial em canalizar atenção e energia na para a superação de obstáculos e limites, de forma que sempre é liberada uma carga razoável de endorfina (hormônio responsável pela sensação de prazer, saciedade e satisfação) no cérebro cada vez que temos a sensação de superar algo difícil ou o que parecia intransponível ou mesmo quando presenciamos alguém vivenciar uma situação assim, isso é o que se chama de “sabor da vitória”, e o esporte acaba delimitando a situação de esforço num recorte de tempo e espaço específico e necessariamente com resultado imediato ao final de uma partida.

Dessa forma, a catarse fica por conta do fato de que o esporte resume e compacta várias situações de desafio, sublimando aquelas contidas em diferentes processos na vida comum, com o grande diferencial é que ao fim do jogo, tem-se o resultado delimitado, e nos processos de desenvolvimento do ser humano, a vida é uma eterna busca dos melhores resultados em todas as áreas possíveis, assim, mesmo podendo se rever a performance no dia-a-dia e reformular direções e objetivos, nem sempre os resultados são claros e estanques como numa disputa, o que nos impele a formas de transferências na assimilação das formas de lidar com desafios.

No Brasil crescemos engolindo os “enlatados norte-americanos”, filmes, seriados, desenhos, programas de TV ou formatos de programas de TV que propagam, evidenciam e incutem a cultura do winner/loser, construindo estereótipos bem rígidos e delimitados sobre o que significa ser bem sucedido, (sempre a partir da exceção como se fosse regra), sendo que, para esse sujeito constructo e subproduto desse paradigma, na busca exacerbada pela distinção positiva, a grande maioria das pessoas jamais passe de uma grande massa de mediocridade ou de “losers”.

Para ser winner é preciso ser o mais diferente possível da maioria das pessoas, o admirável, o aceitável, o mais popular e etc. Mas para essa diferenciação ter essa conotação é necessário que se prenda à apenas dois critérios; que até vão se diferenciar um pouco entre Brasil e EUA; Enquanto no segundo, é necessário, além de já pertencer a uma certa casta ou frátria considerada influente no meio onde se encontra, o acumulo de riqueza ostensivo. Já no Brasil vale mais ainda a idéia de acúmulo, que quando se apenas aparenta, o efeito é quase o mesmo na grande maioria das vezes. Ou seja, mesmo que você não pertença a algum grupo considerado aristocrático, tendo dinheiro ou aparentado ter é possível a você criar novos nichos nos quais será o winner naquele contexto sendo a ostentação o mote.

Quem não lembra do Charlie Brown? Ícone da figura “loser” norte americana... Que puxa...
É dos EUA que importamos essa mania de sempre ter um “herói” dentro do time, a melhor atriz, o melhor isso, o melhor aquilo, etc. Dessa forma, em situações que demandam esforço coletivo, nesse paradigma, se mobiliza também o time jogar em função do herói, convencendo os demais que, na figura dele, haverá a redenção de todos. Isso fica sutilmente registrado no filme de Ugo Giorgetti, chamado “Boleiros: era uma vez no futebol...” quando toda imprensa está empenhada em entrevistar o personagem “Azul”, o artilheiro do jogo e um dos jornalistas vendo a dificuldade para chegar ao astro principal, olha para o lado e decide um colega do mesmo time, no entanto, o colega vai e retorna o foco ao jogador “Azul” dizendo que o time só ganhou graças a ele, ou seja, o time não se reconhece como time, mas sim como equipe de apoio ao jogador Azul.

Também me lembro em 1996 na cidade de Ponta Grossa, de uma partida de basquete da seleção brasileira masculina contra a seleção do Uruguai, um time inteirinho jogar só para o Oscar (mão santa) “chutar dos três” (arremesso de longa distância), na metade do jogo o Uruguai muda para marcação zona (território e não o jogador) ocupando e fechando as zonas de arremesso do cestinha e quase vira o jogo.

Assim determinamos os modelos no mundo esportivo, quem deve ser seguido e admirado, o “winner”, e o apelo midiático ajuda endeusar o mesmo como se o melhor jogador fosse também o melhor ser humano de todos, algo superior e inigualável, o que acaba acontecendo é: a hipervalorização de um indivíduo e suas características, não importando quais sejam, mas com fins de objeto midiático para aumentar o consumo (e assim o lucro de alguém ou alguns poucos); a deturpação do sentido de coletivo e unidade dentro de um grupo, até sua total perda de identidade coletiva, o estabelecimento subentendido de juízos de valor totalmente superficiais da figura do herói, além da transformação do esporte essencialmente em objeto de consumo, pois nesse paradigma o jogador não passa de um manequim de muito luxo para marcas esportivas.

Esse esporte business que se vê na TV hoje em dia, tão bem configurado no futebol infelizmente, não só recorta como superficializa todo processo de superação envolvido no esporte catártico, porque, nessa lente, quando vemos um jogo analisamos o desempenho imediato do herói, como se determinado atleta fosse alguém “ungido” com a glória de ser naturalmente o “altius, fortius e citius” (lema olímpico: mais alto, mais forte e mais rápido) e principalmente nós brasileiros, gostamos de pensar a aptidão física como um talento ou dom divino, sobrenatural e genuinamente brasileiro, nunca resultado de muito trabalho, testes, analises, e treinos repetitivos e exaustivos.

Gostamos de pensar que o Neymar nasceu com um talento sem igual, não que alguém pôs uma bola em seu pé antes mesmo dele andar ou quantas horas ou dias ele passou nos campinhos de várzea de sua vila. Também não estamos interessados em saber se o Ronaldinho Gaúcho passava muitas horas driblando o seu cachorro quando era moleque, pra nós, todas suas jogadas geniais são “apenas” a ginga e o talento brasileiro nato se manifestando.


Essa forma de se ver e realizar o esporte, não permite que se entenda o processo de crescimento pessoal que o mesmo pode proporcionar de fato a cada um dos jogadores, quando devidamente trabalhadas e conduzidas as interelações pessoais decorrentes desse universo, os processos internos e externos que vão edificando a personalidade a cada partida, seja diante do adversário, do técnico, da torcida, das próprias expectativas quanto a performance e ao resultado.

Ainda assim, no fenômeno esporte, a alegria de vencer é tão intensa e contagiante quanto a frustração de uma derrota, pois, enquanto o vencedor desperta a empatia e a admiração, a vontade de imitação, o perdedor exala repulsa e ou piedade, mesmo quando o segundo termo propõe uma zona de conforto para algumas situações e personalidades, ambos sentimentos considerados são considerados baixos e sinais de fraqueza por Nietzsche e também por Freud, que os classificou dentre os sentimentos aversivos que causam mal estar e desconforto ao funcionamento cerebral.

Assim, junta-se a sensação catártica de comoção coletiva pelo resultado do jogo, e acrescenta-se a atenção sub alerta para objetos de consumo, dessa forma, para mostrar que se admira o Neymar já não é suficiente aplaudir em pé, pessoas compram uma camiseta de 500,00$ pra se “sentir um pouco Neymar “winner”, outras pessoas se sentem bem a vontade em usar camisetas ou uniformes esportivos sem praticar nenhum esporte, ou atividade física (alienação?), quando em sua essência, o esporte e a atividade física são pra se usufruir, fruir, superar e se superar, interagir e não para se comprar ou vender, nem que sejam transmissões pela TV.

Mas, nossa mídia segue direitinho a cartilha “winner/loser” e Galvão Bueno repetia “Neymar” (outrora “Ronaldinho”) a cada três minutos e o Neto sempre tem “em sua opinião” um “baita jogador melhor de todos os tempos em determinada posição” a cada semana. Ou seja, esse tipo de mídia é a principal fonte de combustível desse paradigma, gerando o subproduto esporte predatório business, no qual pra ganhar vale tudo, de negociata até dopping.

Ganhar ou perder são dois lados da mesma moeda e partes de um mesmo processo, é impossível existir um vencedor sem um lado perdedor, tanto a punção competitiva quanto a cooperativa são presentes na natureza humana, mas isso em função da punção maior da luta pela sobrevivência, e da mesma forma, ambas podem ser moldadas pela sociedade tanto de maneira construtiva quanto destrutiva.

Quando se encara a derrota numa conotação diagnóstica e educativa, entende-se como um sinal de que alguma coisa precisa ser ajustada e trabalhada, procurando os motivos e as falhas especificas que levaram ao resultado indesejado, e então, tem-se um processo construtivo de aprendizado e uma disputa de métodos, técnicas, ideias.

No entanto, quando se encara a derrota como uma forma de subjugar e ser subjugado, quando a vitória é motivo pra humilhar ou ser humilhado, não há como assegurar a lealdade na disputa então temos a competitividade predatória, aquela na qual “os fins justificam os meios” tão comum no ambiente do mercado.





A derrota da seleção brasileira nessa copa pode ser na verdade um presente da Alemanha como uma grande chance de repensar muita coisa, pondo em xeque, principalmente o que é ser de fato “o país do futebol”nesse paradigma sócio cultural até aqui discorrido.

Um pais do futebol tem ingresso barato porque respeita e prioriza o apreciador e não o lucro do clube e este é deve ser gerenciado por administradores e não especuladores, um país do futebol preza o bom espetáculo antes da marca da camisa e não precisa fazer do futebol uma seita de fanáticos por seus clubes pra vender mais camisa. Um pais do futebol incentiva as crianças a praticarem o futebol não para se ter vantagem, dinheiro ou prestigio em função disso, mas pela catarse e ambiente de aprendizagem e cultura o mesmo pode proporcionar. 

De acordo com o movimento Bom Senso F.C. “A grande maioria dos jogadores profissionais fica desempregada durante metade do ano por falta de jogos. Os principais clubes brasileiros acumulam dívidas fiscais e trabalhistas assombrosas. Enquanto isso, o público nos estádios diminui ano após ano, perdendo para países como os EUA e a Austrália”. Ou seja, é uma reprodução sine qua non da sistemática neoliberal de organização político-social talvez com o maior exército de reserva da História pois basta lembrar dos milhares de campinhos e campeonatos de várzea espalhados pelo Brasil.

O Bom Senso F.C. é um movimento que nasceu de jogadores com uma petição on line com demandas para a CBF, as quais basicamente implicam em um calendário mais democrático para os clubes menores o que ajudaria a organizar melhor a profissionalização do jogador e estende seu vinculo com o clube por mais tempo jogando toda temporada, além do implementação de um “fair play” financeiro de maneira a garantir que os clubes paguem suas dívidas e salários de funcionários em dia.

Enfim, pra ser o país do futebol é necessário assimilar o mesmo antes de tudo como um esporte coletivo de fato, que construções midiáticas não ganham jogo, que todo objetivo de caráter coletivo e abrangente demanda sim de estudo, preparo, analise, planejamento, conhecimento e organização, só então a “raça” pode fazer diferença em detrimento da sorte e isso tudo tivemos e temos a chance de aprender com a Alemanha na nossa casa.

Da mesma forma que podemos sublimar nossas emoções nas partidas de futebol, que a partir da lição (legado) deixada o caminho inverso seja possível e providencial também, que a partir disso consigamos rever nosso senso de coletividade na vida cotidiana. 

Leia também:


Consulte as demandas do movimento Bom Senso F.C. e assine se concordar:





segunda-feira, 14 de julho de 2014

Bagunça ou organização?

Anarquismo: uma perspectiva de composição social que pretende reinventar a ordem

por LUCAS SANTOS



Somos, pois, anarquistas, porque queremos uma sociedade sem governo, uma organização livre, indo do indivíduo ao grupo, do grupo à federação e à confederação, com desprezo das barreiras e fronteiras, sendo a associação baseada sobre o livre acordo e naturalmente determinada e regulada pelas necessidades, aptidões, ideias e sentimentos dos indivíduos. (Neno Vasco) 

O anarquismo1 pode ser compreendido atualmente como um posicionamento político filosófico, e não como a ausência deste, que tem sua trajetória traçada paralelamente a dos movimentos revolucionários da Europa e da América do Norte na segunda metade do século XVIII2

Walter aponta que 

comportamentos favoráveis à Anarquia existiram durante mais de dois mil anos, e muito antes que surgisse o Anarquismo. Escritores dissidentes da Grécia e da Roma antigas, da China e da Índia antigas condenaram a autoridade e reivindicaram a Anarquia. Mais próximo de nós, autores como William Godwin, em 1793, ou Max Stirner, em 1844, por exemplo, refletiram sobre a Anarquia. Movimentos insurrecionais e comunidades utópicas, no transcurso da história, aboliram as formas tradicionais de governo sem adotar novas, ao menos durante um tempo. Experiências marcantes foram iniciadas na Europa e na América nos séculos XVIII e XIX. Mas a evolução da teoria e das práticas anarquistas no seio de uma ideologia anarquista permanente dependiam de uma estreita adequação entre as ideias e os atos.


Devemos nos atentar, porém, ao utilizarmos o conceito de anarquia atrelado a esses pensamentos “primitivos” com ideais comuns ao pensamento anarquista, visto que o contexto em que se inserem são anteriores a própria noção de liberdade que serve de base ao movimento. Fugimos deste modo, da entrega ao anacronismo, realizando assim, as “ligações racionais entre o passado e o presente.”3

Errico Malatesta, pensador anarquista italiano do século XX, aponta que o anarquismo “nasce da revolta moral contra as injustiças sociais (e) […] que boa parte do sofrimento humano não é consequência inevitável das leis naturais ou sobrenaturais inexoráveis, mas, ao contrário, que deriva de realidades sociais dependentes da vontade humana e que podem ser eliminadas pelo esforço humano.”4

Deste modo, podemos compreender o “esforço humano” para reverter às dificuldades sociais causadoras da revolta como a principal causa defendida pelo pensamento anarquista. 

Dentre as dificuldades sociais debatidas dentro do anarquismo, a propriedade privada ganha lugar de destaque, sendo, inicialmente abordada por Pierre-Joseph Proudhon, que foi, em 1840, o primeiro a se denominar anarquista, dando início ao movimento na França.5

Em relação à propriedade Proudhon diz que “(a propriedade) acima da Justiça, (é) invocada sempre por todos como o gênio tutelar dos soberanos, nobres e proprietários: A Justiça, a lei geral, primitiva e categórica de toda a sociedade”6, ou seja, a sociedade formada em seu contexto valoriza a naturalização da propriedade como um elemento necessário para manutenção da justiça, sem levar em consideração que a lógica desta beneficiaria apenas os próprios proprietários e não seria uma ferramenta do bem estar comum. 

DA RELAÇÃO COM A FILOSOFIA 

Apesar de não estar ligado, necessariamente, a nenhum sistema filosófico constituído, o anarquismo possui pontos em comum com a filosofia naturalista, pois aponta o mutualismo como um dos fatores principais para a evolução do homem e o Estado como um corruptor deste em seu estado natural de bondade.7

A esse respeito Piotr Kropotkin aponta que 

a absorção de todas as funções sociais pelo Estado favoreceu necessariamente o desenvolvimento de um individualismo desenfreado e tacanho. À medida que cresciam as obrigações para com o Estado, os cidadãos iam sendo evidentemente aliviados das obrigações de uns para com os outros. Na corporação – e nos tempos medievais – todo homem pertencia a alguma corporação ou fraternidade – dois “irmãos” tinham o dever de cuidar por turnos de um outro que tivesse caído doente; agora era suficiente dar ao vizinho do enfermo o endereço do hospital público mais próximo. Na sociedade bárbara, o indivíduo que assistisse a uma luta entre dois homens, surgida de uma discussão, e não interferisse para evitar que ela tivesse um fim fatal, também era considerado assassino; mas, sob a teoria do Estado que protegia todos, essa intervenção não era necessária: cabia à polícia intervir ou não.8

Caracterizamos aqui a luta maior do anarquismo, que se trata da extinção das relações de poder e de sua instituição máxima, caracterizada na modernidade e na pós-modernidade pela figura do estado constitucional, o que está presente na própria etimologia do termo, como aponta Teotônio Simões “anarquia não é bagunça. Anarquista não é bagunceiro. Anarquia, do grego: an (= sem) e arché (= poder). Anarquismo: movimento que luta por uma sociedade em que ninguém tenha poder sobre ninguém.”9

Jean-Jacques Rousseau, em sua obra du Contract Social; ou Principes du Droit Politique faz a reflexão de que nenhum tipo de autoridade do homem sobre o homem é legítima, pois o homem é naturalmente livre.10

Partindo desta ideia o anarquismo se contrapõe a autoridade manifestando-se através de “ações diretas como greves, boicotes, resistência pacífica, desobediência civil, desrespeito a leis e regulamentos impostos. (pois) Ignorar e desobedecer ao Poder (não conquistá-lo) é para eles a forma de destruí-lo.”11

Deste modo o movimento justifica suas ações, colocando-as como respostas legítimas a ilegitimidade da autoridade imposta (pretendida) pelo Estado. 

DA QUESTÃO DA LIBERDADE E DA AUTORIDADE 

O pensamento libertário é tomado como utópico, em grande parte, por tratar da liberdade enquanto um direito natural do homem, que deve ser extrema e individual, contrapondo-se a liberdade garantida pelas leis instauradas constitucionalmente que também é limitada pelo mesmo sistema e foge assim da definição básica de liberdade, ou, qualidade de quem é livre. 

Esta condenação, porém, é compreensível, afinal ela parte de um engessamento gerado por quase quatro séculos de perpetuação e proselitismo da ideologia burguesa capitalista e de dogmatismo, e esta condição impede o contato e a aceitação de algo que ocasionaria a quebra com o conceito de ordem em vigência. 

Vale ressaltar que 

nenhum de nós pode construir o mundo das significações e sentidos a partir do nada: cada um ingressa num mundo “pré-fabricado”, em que certas coisas são importantes e outras não o são; em que as conveniências estabelecidas trazem certas coisas para a luz e deixam outras na sombra.12

Neste sentido compreendemos que o contato com determinada realidade é fulcral para que possamos nos apropriar de seus sentidos e entendê-la. 

Mas, afinal, como se manifesta a liberdade no anarquismo? 

Apesar da relação apontada anteriormente entre o libertarismo e a corrente filosófica naturalista, parte da teoria libertária se contrapõe, principalmente, no que concerne a liberdade, aos princípios dessa filosofia. 

O bakuninismo pode ser tomado como representação dessa quebra, visto que, para este, a liberdade, mesmo sendo uma característica constitutiva do homem, não nos é dada (naturalmente) e sim conquistada socialmente. 

Além disso, é apontado que a busca de Rousseau pela liberdade nos primórdios da humanidade foi uma atitude falha, pois “o homem estava então privado de qualquer conhecimento de si mesmo. (e) O conhecimento do homem a partir de si mesmo, advém da relação com outros indivíduos em sociedade, sendo portanto, incapaz de conhecer a si mesmo sozinho.”13

A respeito da construção do homem através do convívio social Silvio Gallo aponta que 

se a sociedade é desigual, os homens serão todos diferentes e viverão na desigualdade e na injustiça, não por um problema de aptidões, mas mais propriamente por uma questão de oportunidade. Não podemos mudar a "natureza humana", mas podemos mudar aquilo que o homem faz dela na sociedade: se a desigualdade é natural, estamos presos a ela; mas se é social, podemos transformar a sociedade, proporcionando uma vida mais justa para todos os seus membros.14

Bakunin, mesmo negando a liberdade enquanto parte da natureza do homem, não nega a existência de alguns pontos que fazem parte de nossa animalidade, no caso, a superação desta, pois ele aponta como natural nosso desenvolvimento das questões intelectuais. 

Mas como todo desenvolvimento implica necessariamente uma negação, a da base ou do ponto de partida, a humanidade é, ao mesmo tempo e essencialmente, a negação refletida e progressiva da animalidade nos homens; e é precisamente esta negação, racional por ser natural, simultaneamente histórica e lógica, fatal como o são os desenvolvimentos e as realizações de todas as leis naturais no mundo, é ela que constitui e que cria o ideal, o mundo das convicções intelectuais e morais, as idéias.15

Para que tais negações (transformações) possam ocorrer o pensamento libertário aponta a necessidade do desenvolvimento de um fator específico: a educação. 

Esta educação, no entanto, parte do reconhecimento de que não existe uma prática pedagógica neutra e de que esta deve proporcionar ao sujeito a possibilidade de atingir o estado de liberdade, este conquistado posteriormente através da aplicação do conhecimento adquirido somado à ação direta. 

Para Silvio Gallo 

uma educação libertária deve, paradoxalmente, partir da autoridade, para poder, paulatinamente, fundar a liberdade como conquista individual e construção coletiva da comunidade escolar, e não abandonar as crianças a uma suposta “liberdade natural” de cada um, transformando-se, assim, numa libertinagem que o educere perde todo o seu sentido.16

Nega-se aqui a liberdade enquanto um meio para a educação, partindo, para tanto, do princípio citado anteriormente que demonstra a liberdade enquanto um fator a ser conquistado ao desenvolver da vivência social. A liberdade, então, apresenta-se como produto da educação. 

A autoridade está, segundo Bakunin, no reconhecimento das leis naturais, enquanto imutáveis e incontestáveis, ou seja, devemos nos pautar nos fatos comprovados, como por exemplo, o de que nos queimamos com o fogo, para que desta forma as medidas sejam as mesmas para o coletivo. 

A liberdade do homem consiste unicamente nisto: ele obedece às leis naturais porque ele próprio as reconheceu como tais, não porque elas lhe foram impostas exteriormente, por uma vontade estranha, divina ou humana, coletiva ou individual, qualquer. [...] 

[…] (Deste modo) As autoridades mais recalcitrantes devem admitir que aí então não haverá necessidade de organização, nem de direção nem de legislação políticas, três coisas que emanam da vontade do soberano ou da votação de um parlamento eleito pelo sufrágio universal, jamais podendo estar conformes às leis naturais, e são sempre igualmente funestas e contrárias à liberdade das massas, visto que elas lhes impõem um sistema de leis exteriores, e consequentemente despóticas.17

Nota-se também a possibilidade de uma autoridade manifestada, não pelo reconhecimento das leis naturais, mas pela perícia em determinada área de conhecimento experimentado. Podemos tomar como exemplo o caso de um biólogo e um pedreiro. Ambos possuem conhecimentos específicos e distintos, portanto o biólogo, não possuindo noções de construção, está, então, sob julgo da autoridade do pedreiro e vice-versa. 

O reconhecimento desta autoridade, porém, não implica na constituição de poder de um indivíduo sobre o outro, afinal, esta pode ser superada, e, deve-se levar em consideração que um dos fatores fundamentais da liberdade, para anarquismo, é a igualdade, em detrimento do privilégio. 

É necessário se atentar, também, ao fato de que 

a maior inteligência não bastaria para abraçar tudo. Daí resulta, tanto para a ciência quanto para a indústria, a necessidade da divisão e da associação do trabalho. Recebo e dou, tal é a vida humana. Cada um é dirigente e cada um é dirigido por sua vez. Assim, não há nenhuma autoridade fixa e constante, mas uma troca contínua de autoridade e de subordinação mútuas, passageiras e, sobretudo voluntárias.18


* Acadêmico de Licenciatura em História pelas Faculdades Integradas de Itararé. Atua como estagiário na Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal de Itararé.

1 Utilizarei ao decorrer do texto as duas designações do movimento (Libertarismo e Anarquismo) de acordo com o contexto abordado, visto que o termo libertário passou ser empregado a partir do século XX e as manifestações do pensamento anarquista podem ser notadas desde o século XVIII. 

2 WALTER, Nicolas. O que é anarquismo?. Tradução de Plínio A. Coêlho. São Paulo: Faísca, 2009. 

3 LE GOFF, Jacques. História e memória. Tradução de Bernardo Leitão [et al]. Campinas: UNICAMP, 1990. 

4 MALATESTA, Errico. Traduçaão de Felipe Corrêa. São Paulo: Faísca, 2009. 

5 WALTER, Nicolas. O que é anarquismo?. Tradução de Plínio A. Coêlho. São Paulo: Faísca, 2009. 

6 PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade?. Lisboa: Estampa, 1975. 

7 WALTER, Nicolas. O que é anarquismo?. Tradução de Plínio A. Coêlho. São Paulo: Faísca, 2009. 

8 KROPOTKIN, Piotr. Ajúda Mútua um fator de evolução. Tradução de Waldir Azevedo Jr. São Sebastião: A Senhora Editora, 2009. 

9 SIMÕES, Teutônio. Anarquismo: pequena introdução às ideias libertárias. São Paulo: eBooks Brasil, 2006. 

10 ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. Porto Alegre: L & PM, 2007. (Apesar da relação existente entre o anarquismo e o naturalismo, no que diz respeito à alguns aspectos da liberdade enquanto qualidade do homem, devemos nos atentar ao fato de que o naturalismo não compartilha das aspirações políticas inerentes ao anarquismo.) 

11 SIMÕES, Teutônio. Anarquismo: pequena introdução às ideias libertárias. São Paulo: eBooks Brasil, 2006. 

12 BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 

13 MATEUS, João G .da Fonseca. O conceito de “Liberdade” em Mikhail Bakinin. Espaço Livre, vol. 6, nº 11. Goiânia: NUPAC, 2011. 

14 GALLO, Sílvio. Pedagogia libertária: princípios político-filosóficos. In: PEY, Maria Oly. Educação Libertária. Rio de Janeiro, Achiamé, 1996. 

15BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. São Paulo: Imaginário, 2000. 

16GALLO, Silvio. Autoridade e construção da liberdade: o paradigma anarquista em educação. Campina: UNICAMP, 1993. (grifo do autor) 

17BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. São Paulo: Imaginário, 2000. 

18 Idem.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Casa de Apoio de Jaú e o Terrorismo "Militante" nas Redes Sociais

A desonestidade intelectual fez uma nova vítima em Itararé: os pacientes de câncer

por MURILO CLETO



Criada há quase 100 anos, a Fundação Hospital Amaral Carvalho é um dos maiores e mais modernos centros de oncologia do Brasil. É a mais antiga entidade filantrópica privada brasileira de assistência à saúde. Especializado no tratamento de câncer, o Hospital Amaral Carvalho é a entidade âncora da fundação. Possui mais de 300 leitos em uma área construída de 23.057,42 m² no centro de Jaú/SP, e um corpo funcional de aproximadamente 2 mil profissionais das áreas de saúde, suporte e administração. Figura entre os principais centros de oncologia do Brasil e recebe pacientes de cerca de 500 cidades do Estado de São Paulo, além de mais de 600 cidades do restante do país.

Era uma quarta-feira qualquer, 2 de julho de 2014. Nos corredores do Hospital Amaral Carvalho só havia um comentário: a prefeita Cristina Ghizzi tinha cortado os recursos para alimentação dos pacientes e acompanhantes itarareenses que utilizam a casa de apoio durante o tratamento contra o câncer. Desespero. Muitos não escondiam o choro e a indignação tomou conta do ambiente, que já não é dos mais alegres.

No maior fórum de debates sobre Itararé na internet, histeria. Ex-assessor da Prefeitura Municipal durante a gestão Perúcio, Enivaldo Luiz Mota Mota, como se costuma apresentar no Facebook, compartilhou a seguinte mensagem pra protestar: 

PREFEITA CRISTINA GHIZZI - (PT DA DESTRUIÇÃO)
#SEGUNDAFEIRA #PACIENTESEMALMOÇO #CASADEAPOIO #JAÚ
A vida é para ser CELEBRADA, bem CUIDADA e como gestor público devemos verdadeiramente pensar na questão social.
Assim que assumiu a administração Municipal, vergonhosamente vem cortando, detonando com as questões de ordem social PREFEITA!
DE ONDE VEM TANTA FRIEZA NO CORAÇÃO?
DE ONDE VEM TANTA FALTA OU AUSÊNCIA DE AMOR?
VERDADEIRAMENTE É UMA MULHER MAL AMADA!!!
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Hoje alguns familiares de pacientes, portadores de CÂNCER que já sofrem com essa doença traiçoeira, vieram apavorados dizer que à partir de SEGUNDA-FEIRA a casa e apoio de JAÚ, não mais fornecerá alimentação.
QUE FRIEZA É ESSA RAINHA DO PALÁCIO?
(Texto de Samantha Willian Bernardo )

Não parou por aí. Aliás, longe disso. O perfil de Alexandre Rigonati Pereira endossou o coro e partiu pra cima:

Chega esta na hr de alguem tomar alguma atitude contra esse demonio da Cristina guizzo de cobra cascavel , vamos fazer uma passeata gritando fora satanais , quem topa e tiver peito responde ai ou então parem de ficar enchendo o saco por aqui vamos tomar atitudes chamar a tv tem. Chamar o padre quevedo.para exorcizar ésse ser , credo e eu achava que eu éra vingativo , meu Deus , tirar os remedios dos menos favorecidos , fechar a casa de jau , não pagar os beneficios para funcionarios , é tanta cagada que nem me lembro mais . Viu dona do céu fala ai esse ai ta vindo direto da colombia né ! Jesus ! Viu ja que não precisa de concurso para trabalhar na prefeitura arruma uma teta dessa ai guizzo passa a bola aiii ooooo !

Campeão de acusações ignoradas pelo Ministério Público contra a administração petista, Osvaldo Martins não ficou de fora:

Paz e bem! 

QUEM NÃO TIVER CONDIÇÕES DE SE ALIMENTAR, QUE DEVEM PROCURAR A ASSISTÊNCIA SOCIAL DE JAÚ? 
FALTA DE CARÁTER! 
FALTA DE HOMBRIDADE! 
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Vereadores Mara Galvão Ribeiro, Lucio Mariano Camargo, José Carlos M. Martins Junior, Zeca Do Cofesa Cofesa, Jorinha Ribeiro, Julio Cesar Soares De Almeida,Marcos Vincenzi, Rodrigo Fadel Itararé, alguma providência deve ser realmente tomada. 
ESSA RAINHA, ESSA PESSOA MAL AMADA, INESCRUPULOSA E PÉSSIMA ADMINISTRADORA, JÁ PRATICOU VÁRIOS ATOS DE IMPROBIDADES ADMINISTRATIVAS, PASSOU DA HORA DE SE UNIREM E DERRUBAREM DO PODER. 
O POVO MERECE RESPEITO, E VOCÊS QUE ESTÃO VEREADORES, TEM O PODER DE SOLUCIONAR ESSA PENDENGA! 
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A cidade está sem forças políticas, não temos LIDERANÇA, não temos na verdade nada! 
Apenas um governo demagogo, e acredito ainda que vocês VEREADORES devem ser a última ESPERANÇA! 
#XÔMALAMADA 
#PEDEPRASAIRPREFEITA 
#PTDAVERGONHA 
#PTDADETRUIÇÃO 
Deus abençoe Itararé, e nos livre dessa corja nojenta que desgoverna a cidade! 
OSVALDO PAZ E BEM

As indignações se multiplicaram como viral. Vários sugeriram manifestações populares contra a prefeita e até vereadores. Sandro Ricardo foi um deles, num manifesto que esbanja conhecimento técnico sobre a atribuição dos poderes executivo e legislativo, além de fundamentar seu texto como ninguém:

se isso for verdade o povo tem que acordar e fazer alguma coisa porque ela quer cortar gastos porque ela não manda embora alguns funcionários fantasmas da prefeitura porque na administração dela foi enterrado mais de 3 toneladas de carne foi jogado no aterro milhoes de remedios vencidos ela tem cortar gastos começando por ai não fazendo uma palhaçada dessas na casa de apoio em jaú estou triste com esse relato pois meu pai teve cancer precisou se tratar la só porque a casa de apoio foi o Cezar perucio que fez ela quer acabar faz caçar algo pra fazer sua prefeita do lixo esses vereadores tbem de merda só presta pra mandar a maquina passae nas ruas e dar cestas basicas pra comprar os coitados viu o cambada de sem vergonha estão vendo a palhaçada dessa vagabunda e voceis 13 vereadores não vão fazer nada pra mim São todos farinha do mesmo saco

Pedro Colturato avisou que vai quebrar tudo:

simplesmente estes governantes pensão que o poder é para sempre , se isto acontecer mesmo tomaremos nosso rumo e vamos detonar a casa de lei .e detonar e detonar esta que está pensando que o povo é burro vamos atras de tirar está coisa ruim de governar nossa cidade não vamos deixar Ela sossegada não iramos mostrar nossa força e quebrar tudo pois tudo e o povo que manda não Ela Madame se cuide ou se trate imediatamente pois você está ficando louca fazendo estas loucuras para o povo não se brinca com o povo

Já Roseli Ferraz quer fazer uma passeata:

E que tal fazermos uma passeata como protesto ??? se vier televisao para filmar com certeza ela volta atras !!! me chamem que eu vou !!!!


Fundada em 1998, a entidade Voluntários Itarareenses no Combate ao Câncer começou com a iniciativa das amigas Cacilda Ribas, Maria José, Lili, Lurdinha e Sonia Furlani. Hoje presidente, Mara Galvão foi convidada por Sonia para participar de reuniões com o grupo e Ana Souza, do Posto de Saúde Central. Uma conta na Caixa Econômica Federal foi aberta e as doações começaram.

Dez anos depois, o Hospital Amaral Carvalho, que mantinha um ambulatório em Itararé, anunciou que não seria capaz de mantê-lo no município, e o engajamento do VICC permitiu que suas portas não fechassem. A subvenção destinada pela prefeitura para a fundação foi então realocada para o VICC, que passou a administrar também a parte técnica do ambulatório, além da social.

Em 2009, primeiro ano da gestão Perúcio, a subvenção da prefeitura para a entidade subiu para R$ 192.000,00. No segundo ano, R$ 276.000,00. No terceiro, R$ 360.000,00. Em 2012, a prefeitura passou a destinar R$ 379.000,00. Cristina Ghizzi assumiu o Paço Municipal e, para o equilíbrio das contas, reduziu os valores em 2% e pôs em dia valores atrasados de 2012.

No segundo ano de Cristina, os valores aumentaram significativamente. Apesar da redução na subvenção, um novo acordo com o VICC estabelece que a prefeitura também mantenha a Casa de Apoio de Jaú, como é chamada a Pousada Jerusalém, que atende diariamente pacientes em tratamento e familiares acompanhantes na passagem pelo Hospital do Câncer. Antes, o próprio VICC era responsável pela manutenção do espaço e, ultimamente, seus custos multiplicaram. Agora, ao todo, são R$ 456.000,00 destinados pelo executivo municipal para a entidade, através da seguinte distribuição: R$ 312.000,00 são repassados anualmente em forma de subvenção e R$ 144.00,00 através da manutenção da casa. 

Como a pousada passou a ser mantida pelo poder público, um processo licitatório foi conclamado. Para a infelicidade do VICC, a morosidade no envio da documentação para a prefeitura e a falha de um certame obrigou a entidade a manter, com a subvenção acordada, todas as despesas com a casa pelos primeiros 6 meses do ano. O projeto de lei que autoriza o repasse dos gastos neste período já foi enviado pelo executivo para a apreciação e aprovação da Câmara Municipal, o que deve ocorrer sem maiores transtornos.

Diante do acordo, os serviços prestados pela Casa de Apoio continuam como de costume: cama, mesa e banho para o paciente e um acompanhante. A única diferença é que Itararé, a partir de agora, passa a contar com a parceria da Fundação Hospital Amaral Carvalho para o almoço. Desta forma, o próprio hospital oferece a alimentação para os visitantes, como acontece com quase todos os municípios que contam com o atendimento. Uma assistente social é responsável pela concessão do benefício, menos burocrática do que qualquer outra prestação de serviço.   

Atualmente, além do repasse destes R$ 38.000,00 mensais para a entidade, a prefeitura também é responsável pelo transporte diário de pacientes e acompanhantes para a Jaú. São, em média, 350 pessoas por mês. Em abril deste ano, o VICC recebeu, das mãos da prefeita, a cessão de 557,52 metros quadrados de terreno para a construção da sua sede social e de um novo ambulatório. Hoje, a entidade tem 26 voluntários e atende, aproximadamente, 600 pessoas no combate ao câncer.

O impacto político de veiculações como a que noticiou a falsa informação de que a alimentação na Casa de Apoio de Jaú seria cortada não é difícil de medir: a imagem da administração sai desgastada, os comentários na boca maldita continuam abastecidos pelo repúdio ao Partido dos Trabalhadores e essa falsa militância virtual que confere status à denúncia sem comprovação de procedência já se encalacrou no poder público a ponto deste prejuízo ser considerado irrecuperável. Mas esse é o menor dos revezes. Nada vai pagar o desespero que todos os que dependem dos serviços da Casa de Apoio de Jaú são obrigados a passar por mais um boato construído a partir da pura desonestidade intelectual. Sobre as manifestações de ódio contra a prefeita, um amigo confessou: "esse extremismo tem a ver com o medo".

De fato, não há de se esperar razão daqueles que dependem dos serviços públicos de saúde e são diariamente bombardeados com rumores de cortes que comprometeriam brutalmente seu cotidiano, ainda que a esmagadora maioria do escândalo tenha sido produzida por quem não depende do atendimento. O medo é o principal motor da violência, já escancarou Freud. E é também a principal massa de manobra de quem descobriu no terrorismo "militante" das redes sociais o caminho mais curto para o poder.

Abraços, 
Murilo

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O espectro do neoliberalismo ronda a educação superior pública novamente

por OSVALDO RODRIGUES JUNIOR



Samuel de Abreu Pessoa, professor da Fundação Getúlio Vargas - FGV - e uma das "cabeças" por trás do programa econômico de Aécio Neves, publicou na Folha de São Paulo do último dia 29/06 o texto "Universidade paga". Neste, o economista defende a privatização das universidades públicas no Brasil. Segundo ele, "o ensino universitário deve ser pago. Note que este fato independente de a instituição de ensino superior ser legalmente pública ou privada". 

O professor é Membro do Instituto Millenium - IMIL, formado por intelectuais e empresários com sede no Rio de Janeiro. Este instituto "promove valores e princípios que garantem uma sociedade livre, como liberdade individual, direito de propriedade, economia de mercado, democracia representativa, Estado de Direito e limites institucionais à ação do governo". Em outras palavras, o instituto, criado em 2005, é um aglomerado de "intelectuais" defensores do neoliberalismo. Dentre eles, destacamos o próprio Samuel Pessoa (Doutor em Economia e professor da FGV), Armínio Fraga (presidente do Banco Central durante o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso), Rodrigo Constantino (colunista do "Valor Econômico", "O Globo" e da "Revista Veja") e até Pedro Bial (jornalista da "TV Globo" e âncora do reality show "Big Brother Brasil").

Crítico da política econômica do governo Dilma, por conta do que ele chama de "mão pesada do Estado" que “impede que o setor privado floresça”, Samuel Pessoa já havia criticado a qualidade da educação no Brasil em artigo publicado no site do IMIL em 2012. Seguindo a lógica neoliberal de "estado mínimo", Pessoa defende que a qualidade da educação está atrelada a sua transformação em mercadoria e consequentemente, ao pagamento por este direito constitucional. Independentemente de a instituição de ensino, na visão neoliberal, prestadora de serviços, ser pública ou privada. Para entendermos um pouco do pensamento de Pessoa, é fundamental uma comparação entre as políticas públicas para a Educação Superior nos oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso e nos doze anos de governos Lula e Dilma. 

Já conhecido pelos ataques aos governos Lula e Dilma, Reinaldo Azevedo publicou um artigo na Revista Veja em que afirma ter desconstruído com números a "fabulosa farsa de Lula o maior criador de universidades do mundo". Neste artigo, o colunista parte de números de vagas e matrículas, evasão e número de professores para afirmar que Lula "mente" ao dizer que foi o presidente que mais criou universidades no Brasil. Segundo ele, os dados são do Ministério da Educação - MEC, porém nenhum link é referenciado para acesso. 

Em resposta a este artigo, Naomar de Almeida Filho escreveu "Educação Superior em Lula X FHC: a prova dos números" publicado na Carta Maior. Por meio deste, o autor acusa de mentiroso o artigo de Reinaldo Azevedo demonstrando a utilização de dados incorretos por "desconhecimento" ou "má-fé" e mesmo a inexistência de validade técnica ou metodológica na análise dos "dados" por parte do colunista. Contestando os "dados" apresentados, Naomar indica que durante o governo Lula o número total de matrículas no Ensino Superior cresceu 90,1%, desta forma, o aumento nas taxas de matrícula "não foi de 3,2% e sim de 11% ao ano". Comparando os períodos entre os segundos mandatos de FHC e Lula, o pesquisador indica que o governo Lula abriu 200% mais vagas em universidades federais do que FHC. Em relação a evasão, Naomar indica que Azevedo confunde evasão com ociosidade, e o acusa de ter criado os "dados" que apontam uma brutal evasão durante o governo Lula. Por fim, sobre a acusação de que Lula teria feito das universidades federais "cabide de empregos", o pesquisador e reitor da Universidade Federal da Bahia, indica que o colunista da Revista Veja omite a Reforma Universitária - REUNI de 2008 e os efeitos desta como: aumento de vagas e consequente necessidade de contratação de docentes e técnicos administrativos para suprir as demandas.

Recorrente também é a comparação entorno da criação de universidades federais. Segundo dados do Instituto Lula, entre 2003 e 2012 foram criadas 14 universidades federais, enquanto no governo FHC, entre 1994 e 2002, nenhuma universidade federal foi criada. Buscando dados em trabalhos acadêmicos, o Observatório Universitário de 2006 indica que foram criadas 3 universidades federais durante o governo FHC e 13 durante o governo Lula. Cabe ressaltar, que a criação não necessariamente significa o início das atividades acadêmicas. Porém, por se tratar de um trabalho de 2006, este observatório não leva em consideração as 5 universidades criadas após esta data. Assim, seguindo os dados existentes, nos oito anos de governo FHC foram criadas 3 universidades federais, enquanto nos 12 anos de governo Lula e Dilma foram criadas 18 universidades federais.

O argumento contrário a tese de que durante os governos Lula e Dilma foram criadas 18 universidades federais dão conta de que, apenas 6 universidades foram criadas, sendo que as outras 12 seriam ampliação de antigas faculdades e renomeação para Universidade, conforme o próprio Azevedo indica. Se seguirmos este parâmetro, duas universidades criadas por FHC também são anteriores ao mandato do presidente tucano. A Universidade Federal de Lavras foi criada como Escola Agrícola em 1908, enquanto a Universidade Federal de São Paulo foi criada como Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo em 1933. Além disso, a Universidade Federal do Tocantins, criada em 2000 só entrou em funcionamento no de 2003, ou seja, durante o primeiro mandato do presidente Lula. Portanto, se seguirmos este argumento, teríamos a conclusão de que FHC não criou nenhuma universidade federal em seus oito anos de mandato. 

Além da criação de universidades federais, chama a atenção a interiorização com a criação de campi universitários em várias localidades do Brasil. Até 2003 eram 148 campi universitários federais. Após os 12 anos de governos Lula e Dilma esse número subiu para 321 conforme dados do Ministério da Educação - MEC. Esta ampliação é melhor verificada no quadro abaixo (marcadores amarelos - campi anteriores a 2003 / marcadores verdes - campi criados durante os governos Lula e Dilma). 



Para entender melhor esta diferença é fundamental a compreensão de que o governo FHC assumiu uma política neoliberal de descentralização da Educação pública por meio da Lei 9.394/96, Lei de Diretrizes e Bases - LDB -, ao mesmo tempo em que abriu espaço para a iniciativa privada ampliar a sua rede de instituições de ensino superior, conforme o próprio Observatório Universitário de 2006 indica. Tudo isso, relacionado a política econômica de subserviência ao Fundo Monetário Internacional - FMI -, que chegou em 2001, a sugerir o fim da educação superior gratuita no Brasil de acordo com manchete publicada no jornal Folha de São Paulo. Ou seja, a tese de privatizar a educação superior pública defendida por Samuel Pessoa, não é nova e está relacionada fundamentalmente a perspectiva de educação dos governos neoliberais. 


Outra questão levantada pelos analistas favoráveis a privatização da educação superior é a possibilidade de pagamento de mensalidade por parte da maioria dos alunos, por conta da elitização da educação superior pública. Infelizmente, a elitização da educação superior pública no Brasil é uma realidade a ser enfrentada. No entanto, tal evidência demonstra na verdade, a perversidade do sistema escolar brasileiro, no qual, membros das elites ou "os herdeiros" à moda de Bourdieu, cursam a educação básica privada e ascendem a educação superior pública por meio dos vestibulares. Contudo, essa reprodução das desigualdades não serve de argumento para a privatização da educação superior pública, o que dificultaria ainda mais o acesso de pessoas de baixa renda ao ensino superior público. 

Mais uma vez é momento de defender a educação pública, direito constitucional previsto, primeiramente, no rol dos direitos sociais elencados no artigo 6º da nossa Constituição Federal, que prevê: “são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma dessa Constituição". Ademais, no capítulo III - Da Educação, da Cultura e do Desporto, na Seção I, encontramos um rol de artigos que legitimam este direito. No entanto, o significado de educação pública deve ir além do elencado em nossa Constituição, conforme Foot Hardman e Pecóra uma "educação pública, universal e de qualidade igualmente acessível para quem nasça pobre, seja preto, pardo, indígena ou branco. Sem barreiras. Sem alfândegas". 

Para isso, é necessário mais do que políticas públicas de acesso ao ensino superior, mas sim o rompimento com esta lógica perversa de reprodução das desigualdades iniciada na educação básica e legitimada pela educação superior no Brasil.

Abraços,
Osvaldo.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A Revolução Constitucionalista de 1932 em Itararé

Menos de dois anos após a vitória da Revolução de 1930, Itararé servia novamente como palco de conflitos. Uma variada documentação nos ajuda a entender melhor os acontecimentos passados no mês de julho de 1932 na cidade 

por DANIEL BARRETO*

O movimento conhecido como Revolução Constitucionalista corresponde ao maior confronto armado ocorrido no Brasil. Por quase três meses, brasileiros se enfrentaram em trágicas batalhas que levaram a morte um grande número de pessoas. Para saber as causas do levante, seu andamento e suas terríveis consequências, é necessário compreender o contexto histórico e os fatos que antecederam a “guerra paulista”. 

Durante a maior parte do período conhecido como “Primeira República” ou “República Velha” no Brasil, que vai da Proclamação da República em 1889 até a Revolução de 1930, foi predominante a aliança política entre os dois estados mais ricos do país: São Paulo e Minas Gerais. Enquanto nas eleições de 1922 os grupos se uniram na candidatura do mineiro Artur Bernardes, em 1926 foi a vez do paulista por carreira política Washington Luís. Pela lógica oligárquica, em 1930 seria a vez do lançamento de um candidato mineiro. 

No entanto, pouco antes das eleições de 1930 o presidente Washington Luís rompeu o acordo que tinha com Minas Gerais e indicou o governador de São Paulo, Júlio Prestes, como seu sucessor. Os mineiros não aceitaram a indicação e rompendo a aliança se juntaram aos estados do Rio Grande do Sul e da Paraíba no lançamento da candidatura de Getúlio Vargas. 

Naquele período, o voto ainda era um privilégio. De acordo com a Constituição de 1891 – a primeira republicana – votavam apenas homens, maiores de 21 anos e que fossem alfabetizados. O voto também não era secreto. Desse modo, grande parcela da população brasileira se via excluída do direito ao voto. Aos que votavam, havia ainda a sombra do coronelismo e do “voto do cabresto”, onde lideranças oligárquicas regionais influenciavam os eleitores na escolha de um nome que atendesse a seus interesses. 

As eleições presidenciais de 1930 foram realizadas em 1º de março, com posse marcada para 15 de novembro. Esta última data era escolhida justamente por fazer referência a Proclamação da República. O resultado das eleições dava a vitória para Júlio Prestes, que recebeu aproximadamente 59% dos votos. 

Inicialmente, Getúlio Vargas e seus correligionários não contestaram o resultado das eleições. Getúlio, inclusive, dava declarações em que reconhecia Júlio Prestes como vencedor legítimo. Todavia, um acontecimento mudaria o rumo dessa aparente estabilidade política. O assassinato de João Pessoa, que havia concorrido como vice de Getúlio, por um rival político de nome João Dantas, em 26 de julho. 

As causas do assassinato de João Pessoa eram, predominantemente, de cunho passional, o que não impediu que seus partidários se utilizassem de sua morte para torná-lo uma mártir da luta contra o regime político nacional. O fato de o assassino João Dantas ser rival político de Pessoa corroborou ainda mais para as interpretações que davam conta de um possível crime encomendado a mando dos paulistas. Somado a isso, estava a crença obstinada por parte dos derrotados de que o resultado das eleições havia sido fraudado. 

Com a morte de João Pessoa, a ação em torno de uma possível insurreição armada tomou forma. No Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e na Paraíba grupos de militares iam aos poucos se organizando. No dia 3 de outubro a luta se iniciava. 

Alguns dias depois, tropas legalistas já começavam a chegar a Itararé, cidade estratégica por ser fronteira entre estados. O discurso do governo era claro: “defendam Itararé a qualquer custo”. Do outro lado, a marcha gaúcha ia se aproximando. Grupos armados já trocavam tiros na fronteira e um intenso clima de pânico se disseminava entre os moradores da cidade. Muitos desses, assustados, começavam a debandar, fugindo para sítios afastados ou para outras cidades distantes do iminente perigo. 

A invasão de Itararé pelos revolucionários estava marcada para acontecer ao meio-dia do dia 25 de outubro. Esperava-se uma batalha sangrenta, em que aproximadamente oito mil soldados se enfrentassem mortalmente. O maior confronto entre brasileiros na história transformaria a pacata Itararé em um campo de guerra. Porém, horas antes da batalha, ainda em 24 de outubro, uma junta de militares havia deposto Washington Luís na capital federal. 

A notícia da deposição de Washington Luís chegou rápido até as frentes de combate na fronteira entre os estados. Lideranças gaúchas, encabeçados pelo deputado Glicério Alves se encontraram com os chefes dos legalistas, informando da derrubada de Washington Luís. Em pouco tempo, a tropa governista ia se dispersando e grande leva de revolucionários tomavam as ruas da cidade. Quatro dias depois, a 28 de outubro, Getúlio Vargas chegava com festa na Estação Ferroviária de Itararé. 

Após a passagem por Itararé, Getúlio partia para o Rio de Janeiro, então capital federal. Lá chegando, a 3 de novembro de 1930, foi reconhecido como chefe da revolução e recebeu a presidência. Para seus aliados, era a vitória de uma revolução necessária e legítima. Para seus opositores, um Golpe de Estado e a implantação de uma ditadura. 

No poder, Getúlio nomeou interventores para os estados, exilou opositores, cancelou a Constituição e fechou as Câmaras Municipais, Assembleias estaduais e o Congresso Nacional. Essas ações foram mal recebidas pelos paulistas que passaram a mobilizar vários protestos contra o governo getulista. 

O estopim para um movimento armado contra Getúlio se deu quando a 23 de maio de 1932 vários paulistas foram mortos em confronto com tropas legalistas nas ruas de São Paulo. A partir das iniciais dos nomes de quatros dos mortos (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo) os revoltosos formaram o MMDC, uma espécie de milícia armada com o objetivo de arquitetar a revolução. No dia 9 de julho, por todo o estado de São Paulo, os ideais constitucionalistas se difundiam e o levante tinha início. 

Rapidamente houve uma grande adesão de voluntários paulistas para o front. Estudantes, profissionais liberais, funcionários públicos, professores, esportistas, enfim, oriundos das mais diferentes camadas sociais e profissões, esses voluntários representavam bem a ideia de união da sociedade paulista em prol do levante armado. 

Os objetivos do movimento eram claros: a retirada de Getúlio Vargas da presidência, a realização de eleições presidenciais e a elaboração de uma nova Constituição. Neste sentido, para alcançar a população e consequentemente difundir as ideias constitucionalistas, os meios de comunicação de São Paulo tinham importância fundamental. 

Jornais, revistas, cartazes e o uso do rádio foram constantemente utilizados não somente pelos paulistas, mas também pelas forças aliadas do governo ditatorial de Getúlio. 

Discursos inflamados encabeçavam campanhas visando angariar fundos para a luta dos soldados. Uma das mais famosas foi a que pedia a doação de ouro para o movimento. As mulheres paulistas também eram atingidas por essas campanhas. Eram enfermeiras, costuravam e repassavam mensagens nos campos de batalha. 

Apesar de toda a força que o movimento paulista alcançou, ele foi sufocado por tropas fiéis ao governo ditatorial em princípios de outubro de 1932. O ânimo da campanha contrastava com as dificuldades de uma guerra. A precariedade de armamentos e munições e o desconhecimento por parte da maioria dos voluntários das particularidades de um combate foram fatores que pesaram para a derrota bélica do movimento.

Além do mais, Getúlio Vargas contava com toda a capacidade armamentista do país, com exceção, obviamente, do estado de São Paulo que encabeçou a campanha e de pequenos focos de sublevações militares fiéis às propostas constitucionalistas em estados como o Rio Grande do Sul, Mato Grosso e o norte do país. Mesmo assim, esses outros levantes tiveram um período ainda mais curto de duração. 

Os principais líderes do movimento, tanto civis como militares, foram presos e exilados. Até hoje não há uma contabilidade precisa com relação ao número de vítimas fatais no confronto. Sabe-se, porém, que o numero é bem próximo ou até superior ao de 1000 mortos em menos de 90 dias de batalhas. 

Com o seu término, a Revolução de 1932 foi adquirida de um profundo valor cívico pelo estado de São Paulo. Nas armas, de fato, o movimento perdeu. Contudo, uma nova Constituição, reivindicação fundamental dos constitucionalistas, foi promulgada em 1934. 

Outra valorosa consequência que a Revolução de 1932 trouxe foi o hábito de se prestar homenagens aos seus ex-combatentes. A todo 9 de Julho, através de diversas cidades do estado, são lembrados o feitos alcançados por aqueles corajosos paulistas. 

Itararé – Diversidade de relatos sobre a Revolução de 1932 

A cidade de Itararé (SP) teve participação decisiva na Revolução de 1932. Assim como em 1930, quando da passagem vitoriosa de Getúlio e sua comitiva, em 1932 a até então pacata cidade de cerca de 10 mil habitantes, serviu de frente de combate. 

Por sua localização estratégica, cercada de formações rochosas que ligam o estado de São Paulo ao Paraná, novamente foram cavadas trincheiras na área de divisa do município. Em menos de dois anos após a passagem dos gaúchos, a cidade era agitada por outra revolução. 

Muitos batalhões foram mobilizados pelos paulistas para a defesa da frente sul do estado. Entre eles, se destacou o Batalhão Universitário 14 de Julho, formado, na grande maioria, por estudantes universitários da capital. 

Através do Batalhão 14 de Julho e de obras que foram escritas posteriormente por seus componentes, é possível termos ideia do que se passou no mês de julho de 1932 em Itararé. Um de seus jovens componentes foi Aureo de Almeida Camargo, então estudante de Direito em São Paulo. Natural de Amparo (SP), Aureo esteve presente nas principais batalhas travadas na frente sul. Em 1933, um ano após o confronto, lançou seu livro de memórias do Batalhão Universitário, denominado “A Epopea”. 

Seus relatos ajudam a entender todo o imaginário formado em torno daquele estudante de pouco mais de vinte anos que acabara de desembarcar na Estação Ferroviária da cidade: 

São as portas de S. Paulo, essa pequena cidade humilde nas suas casinhas, que vistas da estação se assemelham ás casas de madeira do Monte Serrat santista, tal a multiplicidade de cores aportuguesadas que apresentam. Impressão de cidade americana de fronteira, onde se praticam crimes e contrabandos, tudo que cabe numa localidade de divisa. Engano da imaginação de cinema. São as lendárias portas de S. Paulo que ali estão, são os Itararés, a cidade, o rio, a barranca.

O Batalhão a que Aureo fazia parte teve vida curta na defesa de Itararé. A 18 de julho, três dias após sua chegada, foi descolado até Faxina (hoje Itapeva). Deixar Itararé, além de enfraquecer a defesa que passou a ser feita pelos poucos batalhões que restaram, trouxe para Aureo e seus camaradas um sentimento de comoção: 

Chorem, senhores da retaguarda, que a tropa de Itararé está chorando, os comandantes, os soldados. Um mixto de ódio e pezar. Abriram-se as portas de S. Paulo, senhores de S. Paulo! Pudessem ellas ser sustentadas com lagrimas... [...]
O “Cavalleiro de Itararé” já não é uma figura lendaria, ameaça das mães ás crianças endiabradas, uma qualquer coisa com feição de Apocalipse, e sim uma realidade, tomou forma humana. E vem ahi, pelas portas. Corrrei, crianças...
Itararé cahiu!
O espirito de oppressão das retiradas, a angustia do abandono, mais o aperto de coração, que se reflecte escandalosamente nos olhos e no silencio acabrunhador, fazem a retirada de Itararé, tudo no malfadado 18 de Julho, o decimo da revolução paulista.

O Batalhão 14 de Julho, em sua rápida passagem por Itararé, foi fotografado pelas lentes de Claro Jansson. Em seu estúdio fotográfico na cidade, Claro recebeu sete dos integrantes do Batalhão para uma foto que se tornaria histórica. E adivinha que é o primeiro em pé da esquerda para a direita? Sim, é justamente Aureo de Almeida Camargo! 



Em pé, da esquerda para a direita, os integrantes do batalhão - Aureo de Almeida Camargo, Felício Cintra Prado, Alonso F. Camargo e José Ignácio Lobo. Os soldados sentados não foram identificados. Foto de Claro Jansson.

O Estado de São Paulo e A Gazeta foram dois dos muitos jornais paulistas que dedicaram cobertura do levante desde seu início. Em suas páginas do mês de julho de 1932 há reportagens informando sobre a situação na frente sul. Nessas matérias, Itararé tem sua situação destacada. Apesar da cobertura, notícias de derrotas nos conflitos eram omitidas ou tinham seu conteúdo alterado de forma a transmitir ao leitor que determinados contingentes que recuaram o fizeram por necessidade estratégica para melhorar a defesa, mas 
nunca motivados pelo avanço dos inimigos. 

Em edição do dia 22 de julho, O Estado de São Paulo atentava para a publicação de “A verdade sobre Itararé”, matéria em que a partir da publicação de uma carta, refutava os comentários que diziam ter sido o exército constitucionalista derrotado na cidade. Segundo a correspondência, as maiores baixas tinham sido dos adversários, tendo os constitucionalistas apenas “alguns arranhões”:

A verdade sobre Itararé  

Communica-nos o Serviço de Publicidade:
“O sr. Carlos Lobato, escrivão da 1ª delegacia de policia desta capital, recebeu do dr. Cyro Werneck de Souza e Silva, voluntario que faz parte do batalhão “14 de Julho”, a seguinte carta:
“Estamos em Faxina, descansando da luta. Hoje ou amanhan seremos novamente encaminhados para os pontos de combate.
O animo da nossa tropa é optimo. Muitos do nossos companheiros, quando receberam ordem de seguir, com escalas, até Faxina, choraram de desespero: não queremos abandonar o “front” de maneira alguma
As baixas dos nossos inimigos no ultimo combate, em Itararé, foram numerosissimas. As “comedeiras” pesadas leves, bem como os fuzis falaram por muito tempo, fazendo estragos enormes.
As noticias que soubemos correr sobre o nosso batalhão, o “14 de Julho” são inveridicas. Estamos todos optimamente; apenas um ou dois companheiros estão com alguns arranhões, resultantes dos trabalhos nas trincheiras.

A Gazeta, também em edição de 22 de julho de 1932, publicava uma carta de um combatente que havia deixado Itararé. No documento, o soldado Carlos de Campos Pagliuchi, então já em Itapeva, procurava acalmar seu tio a respeito das notícias que vinham do setor sul. De quebra, o combatente achava ainda 
tempo para elogiar as mulheres da região: 

Faxina, 19 de julho de 1932 – Caro tio – Saudações.
Escrevo-lhe esta de Faxina, onde estamos fazendo uma estação de repouso! Que terra adoravel! Somos servidos por garotas do outro mundo, o que nos deixa até algo encabulados... Pudera, já estamos
perfeitamente imbuídos no nosso papel de simples soldados!
Depois de um descanso de uns dois dias retornaremos ao nosso
posto na fronteira.
Todas as noticias que circulam a respeito de Itararé são falsas:
não tivemos ainda um ferido, siquer!!!
A vida do soldado razo é admiravel: pouco trabalha e só vive reclamando e tapeando os outros; estou engordando muito.

As fontes aqui apresentadas nos ajudam a perceber a diversidade de relatos surgidos a partir da movimentação em torno da Revolução Constitucionalista de 1932 em Itararé. São, pois, apenas pequenos fragmentos de uma história que aos poucos vai se desvencilhando de sua postura rígida para se tornar referência de informações de fácil acesso. Com o andamento desta pesquisa, outras novidades (com já mais de oitenta anos) serão expostas ao leitor. 

FONTES E REFERÊNCIAS

A VERDADE SOBRE ITARARÉ. O Estado de S. Paulo, 23 jul. 1932.
A VIDA DO SOLDADO É ADMIRÁVEL. A Gazeta, 23 jul. 1932.
CAMARGO, Aureo de Almeida. A Epopea. São Paulo: Saraiva, 1933.

* Licenciado em História pelas Faculdades Integradas de Itararé. Atua como professor de História na Escola Estadual Esther Carpinelli Ribas. Artigo publicado originalmente na edição de julho de 2013 do programa "Memórias Que o Rio Cavou", sob sua coordenação na Coordenadoria Municipal de Cultura.


terça-feira, 8 de julho de 2014

Questionamentos sobre a banalização da pobreza

por LUIS FELIPE GENARO



De sábado a sábado o canal Futura tem transmitido uma série de documentários produzidos por inúmeros cinegrafistas em diversos lugares do mundo, todos marcados pelo timbre questionador “Why Poverty?” [Por que a pobreza?]. O último que assisti e recomendo aos leitores chama-se “Park Avenue: Money, Power and the American Dream” [Park Avenue: Dinheiro, Poder e o Sonho Americano]. Para uma discussão que englobe o desenvolvimento e as crises no sistema capitalista e as fendas sociais gigantescas por elas gestadas, o documentário não deixa a desejar. Talvez pelo cenário ser uma famosa avenida da cidade de Nova York, em Manhattan, dividida por uma ponte social e econômica pouco conhecida e quase nunca questionada. 

De um lado, os edifícios e apartamentos mais sofisticados, luxuosos e opulentos que se têm notícia. De outro, guetos e comunidades paupérrimas compostas por negros de classe médio-baixa que lutam diariamente para conseguir um emprego, um abrigo e mais de uma refeição por dia. A série de documentários “Why Poverty?” talvez não responda por que existe pobreza de fato ou por quais razões ela não tenha um fim, mas mostra ao espectador a cruenta realidade global e o rastro de sangue e lágrimas que proporciona diariamente. O documentário nos dá a chance de responder e questionar todo um sistema de exploração desumano e selvagem. No Brasil, nós sabemos, as coisas não são diferentes. 

Recentemente pipocou na internet a lista das famílias mais abastadas do país. Foi curtido e compartilhado, mas moderadamente analisado. O patrimônio dos clãs mais ricos do Brasil está acumulado em 64 bilhões de reais, ocupando o topo da lista – que novidade! – os donos das Organizações Globo. Samantha Maia, jornalista da Carta Capital, faz uma constatação intrigante ao concluir a notícia: quando se produziu a primeira lista de bilionários brasileiros, em 1987, havia apenas três. Entre parentes e agregados, hoje somam sessenta e cinco. 

Não menos importante, rememoremos o estudo – assustador! – do economista Marcio Pochmann realizado em 2004 e atualizado recentemente. Constatou-se através do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que existem cinco mil famílias brasileiras que possuem um patrimônio equivalente a 40% do PIB nacional. Quando se ataca, por exemplo, programas de distribuição de renda como o Bolsa Família, desconhece que este patrimônio é dez vezes maior que a renda de quatorze milhões de famílias atendidas pelo programa. 

Revoltar-se contra o fiel leitor da Veja ou a dondoca que nada faz a não ser consumir e maldizer a empregada doméstica não nos levará a lugar algum. Sabemos disso, pois a realidade nacional é tão clara quanto à luz do dia. Neste ínterim questiona-se porque a desigualdade brasileira está entre as dez maiores do mundo e o número de pessoas ricas só aumenta. Seria culpa do Estado? É sabido que os sucessivos governos pós-Regime Militar e toda estrutura política secular não conseguiram se desvencilhar do pacto histórico com as elites e oligarquias regionais, com as grandes corporações e empresas internacionais, a imprensa nativa e os inúmeros setores conservadores do país. Há todo momento as coisas permanecem mudando para que, no fundo, nada mude. 

Ou impomos popularmente, através da sublevação das massas, projetos e programas que atendam não mais os ricos e poderosos, mas os oprimidos pelo sistema, subvertendo-o nos caminhos da verdadeira democracia, ou a lista de bilionários tende a crescer exponencialmente criando “pontes da desigualdade” como as de Park Avenue, em Nova York, ou como a de qualquer grande avenida brasileira. Estamos a um passo da completa banalização da pobreza. 

Teremos uma distribuição de renda efetiva quando a esfera política deixar de estar prostrada ao mortífero poderio econômico nacional e estrangeiro. Quando a taxação de impostos a grandes fortunas for uma realidade, a Reforma Agrária for cumprida, entre tantas lutas incessantes, criminalizadas pela força policial e pela ideologia dominante, prosseguirem rumo à vitória – uma vida digna e justa para todos. A mudança virá quando finalmente deixarmos de aliciar a Casa-Grande, permitindo a existência e dando sobras à Senzala.